Beleza: a genética do bisturi

BELEZA - A GENÉTICA DO BISTURIÉ do conhecimento geral que gosto não se discute – o que é belo para um é feio para outro – assim como não existe um consenso sobre o conceito de beleza: alguns acreditam que a beleza interior prevalece sobre a exterior, outros pensam o contrário, mas que tal um breve apanhado sobre a etimologia da palavra e algumas das suas possíveis acepções, ao longo da história, no que diz respeito à “beleza” feminina?

O vocábulo “beleza” do latim clássico bellus, do vulgar bellitia, do italiano belleza é a qualidade do que é belo, que se enquadra no ideal estético, harmonia, perfeição das formas. De acordo com o dicionário Aurélio “pessoa bela”, “coisa bela, muito agradável, ou muito gostosa (…)”. Pode significar também o caráter de quem é digno de ser admirado, por suas qualidades intelectuais e / ou morais.

Sabemos que esses conceitos variam culturalmente, geograficamente, e são temporais; portanto, se a beleza, para os gregos da antiguidade, ia além da estética corporal e da prática de atividades físicas, englobando estilo de vida – gostos, conhecimentos pessoais, etc., na Idade Média, apesar das incertezas sobre a existência ou não de um “ideal de beleza”, o ventre volumoso era extremamente valorizado: quanto maior, mais belo. Já no Renascimento, as “gordinhas” eram consideradas as mais belas, afastando-se do que se buscava como “ideal” no século 17, em que a cinturinha de pilão era o objeto de desejo.

Esses ideais de beleza, entre muitos outros, – peito achatado, músculos excessivos, culto à magreza, por exemplo – fizeram parte da história da “beleza” e todos foram influenciados pela época em que se encontravam, mas, e atualmente? O que dizer de uma época em a “beleza” sofre influência direta das regras da sociedade, assim como da moda? Em que as cirurgias plásticas não mais são praticadas com o intuito de corrigir pequenas imperfeições, mas sim de embelezar e alterar drasticamente corpos e rostos? Você acredita que existe um “ideal de beleza” unânime nos dias de hoje? Seios grandes, cintura fina e quadril largo? E até que ponto você se sacrificaria para atingir tal “perfeição estética”? Você faria cirurgias plásticas, tratamentos estéticos e passaria horas na academia?

Bem, nada tenho contra o que acabei de citar, aliás, tenho plena consciência de que algumas imperfeições no corpo, rosto, cabelo, etc., podem reduzir bastante a auto-estima e, até mesmo, o convívio social, de qualquer pessoa; por isso entendo e suporto a ideia de que as pessoas devem recorrer a “tudo” que estiver ao seu alcance para a obtenção da simetria das formas, do corpo esbelto, rostos esticados, etc., desde que estejam dispostas a tal.

Confesso que, particularmente, gostaria de me livrar daquelas gorduras extras que não nasceram comigo, mas insistem em fazer parte do meu corpo, porém, não sou chegada a exercícios físicos e não sei até que ponto arriscar-me-ia. Sim, porque nós trocamos um defeito físico por uma cicatriz, o pós-operatório nem sempre é dos melhores, sem contar com os riscos que acompanham qualquer cirurgia. Um exemplo recente, que chocou a sociedade, foi o de uma jovem jornalista, de apenas 27 anos, falecida após uma cirurgia de lipoaspiração, sendo esta apenas “mais” uma entre muitas fatalidades que ocorreram; porém, é um risco que a pessoa assume.

Pois bem…

O que não consigo aceitar é a negação. É que, meu humilde Ser fica inconformado. Muitas pessoas – agora ouso denominá-las de ridículas – não admitem que se submeteram a tais processos de embelezamento artificial – cirurgias, uso de anabolizantes, etc., – são, por demais, hipócritas, pois mentem para elas mesmas e para os outros; muitas ainda têm a “cara de pau” de afirmarem que foi tudo “genética” e essa simplesmente não dá para engolir, não mesmo!

Para mim, é inconcebível que pessoas assim, provavelmente, com grau reduzido de intelectualidade, esquecem de “malhar” o cérebro, não aceitam a realidade de que, se não acontecer um milagre, é melhor pedirem para nascer novamente, mas ainda assim, se quiserem falar de “genética”, que não seja a do bisturi – falemos. Vamos citar exemplos que não precisaram de intervenção cirúrgica, obras da “natureza”: assim, a cinturinha da Ellen Rocche, o rosto angelical da Roberta Thaise, as pernas da Ana Hickmann, e porque não citar o bumbum da Andressa Soares, vulgo mulher melancia? Isso sim, exemplos sem rodeios, sem hipocrisia da “genética do bisturi” como intitula a ex-modelo paraguaia Veronica Castiñeira.

Seja como for, finalizando, o que mais me martiriza, admito, fere e faz sangrar a minha alma; além de tudo que escrevi, acima, é que essa busca desenfreada pelo “corpo perfeito”, em regra, distancia os admiradores e seguidores dessa cultura, que visa beleza física, acima de tudo, da beleza tão ou mais importante, a intelectual e a moral. Que esses devotos, incapazes de entender a harmonia, mens sana in corpore sano, possam alcançar o equilíbrio, entre ambos, antes que seja tarde. É só querer e não se deixar levar pelos modismos estéticos, porque, caso contrário, no máximo, o que irão conseguir é a perda da sua identidade: um dia você olhar-se-á no espelho e não mais se reconhecerá – você será um estranho no próprio corpo.  O soneto Além do físico de Glória Salles, ilustra muito bem, este artigo:

Descobri-te, muito alem do físico.
Da emoção todos os limites transpondo
Pisando ainda oscilante, em solo desconhecido.
Deixando fluir, me desarmando, me expondo.

Burlei preconceitos, ignorei preceitos.
Mergulhei na fonte límpida, oferecida.
Desnudei a alma, libertei sentimentos.
Imergi as dores impostas pela vida

Deixei a voz que é silêncio me trasladar
Cri na  transparência que se abriu pra mim
E no despojado gesto de me amar assim

Ao emergir, corpo e alma renovados
Deixei na fonte resquícios de memória
E sem medo de seguir, reeditei minha história.

*Obrigada ao Vicente Freitas pelas correções.

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