Por que não podemos simplesmente nos formatar?

PORQUE NÃO PODEMOS SIMPLESMENTE NOS FORMATARApercebi-me que, por mais lembranças que tenhamos, sempre nos remontamos às recordações mais tristes ou que nos fazem sofrer. Algumas nos conseguem transportar a lugares onde estivemos no passado, coisas que vivemos. Por vezes, também acordamos imagens adormecidas. Infelizmente, a memória não se apresenta a nosso bel-prazer. Por conseguinte, vamos tentar compreender um pouco mais sobre o conceito, sua forma de funcionamento e o que a ciência nos reserva para o futuro.

O conceito “memória” pode ser confuso e complexo, variando com a especialidade a ser aplicado. Desta forma, vamos analisar o termo, inicialmente, em lato sensu.

A palavra “memória” vem do latim memória.  Significa“lembrança”, “recordação”, “reminiscência”. Trata-se da faculdade de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente. Consiste na capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações disponíveis no cérebro. Tem como foco coisas particularizadas, necessitando de grande energia mental.  Deteriora-se com a idade. De acordo com estudiosos, a memória é o principio do conhecimento.   Portanto, deve ser treinada e estimulada, com o objetivo de formar novas ideias e acumular experiências, permitindo-nos tomar decisões diárias.

Existem basicamente dois tipos de memória:  a declarativa, que se subdivide em imediata, de curto prazo e de longo prazo. A outra é a memória de procedimentos. Esta última seria a capacidade que temos de conservar e processar informações que não possam ser verbalizadas. Tem maior estabilidade, apresentando menor grau de detrimento. Um exemplo característico desse tipo: quando aprendemos a andar de bicicleta, mesmo se ficarmos anos e anos sem andar, não perderemos a capacidade de fazê-lo. Verdade que, até andarmos em linha reta de novo, estaremos susceptíveis a alguns tombos; mas, o fato é que uma vez aprendido, não esquecemos.

Esclarecendo um pouco as subdivisões da memória declarativa: a imediata é aquela que tem duração de frações de segundos, como a repetição do número de telefone, imediatamente após ser ouvido. Este acontecimento é esquecido depois de um determinado tempo, uma vez que este tipo de memória tem limite na sua duração e pouco “espaço” de armazenamento. Porém, não vamos confundir com a de curto prazo que, retendo algumas informações, demora algumas horas.  Por isso, somos capazes de nos lembrar do que vestimos no dia anterior: assim, não vale ficar dois dias seguidos com a mesma roupa, sob a alegação de esquecimento.

Chegamos agora à memória de longo prazo, a que pode nos causar tormento ou alegria, por dois motivos: além de ter duração de meses, anos ou ilimitada, também tem capacidade de armazenamento sem fim. É aqui que se encontram as lembranças da nossa infância, do que aprendemos na escola ou da morte de um ente querido. Nela, residem lembranças boas e ruins, algumas que gostaríamos de guardar para todo o sempre; e outras, que preferiríamos esquecer ou simplesmente apagar.

Bom, eu não sei quanto a vocês, e pode até soar engraçado, mas confesso que já pensei várias vezes que gostaria de me formatar. Sim, isso mesmo, como se fosse um computador: deletar da memória tudo o que é desagradável.   Embora, eu até ficasse feliz em organizar a minha memória em pastas, e apenas utilizar o sistema de arquivo oculto.  Você já parou para pensar nisso? Por que não podemos simplesmente nos formatar?

Um pouco de esperança: cientistas, através de testes realizados em ratos (para variar), comprovaram que é possível fazer com que o cérebro apague lembranças indesejáveis. E sabem o que é melhor? Os ratos que receberam injeção, com fim de apagar o que haviam aprendido, foram capazes de aprender novamente, mostrando que o procedimento não causa problema algum à memória.

Agora pense… Não seria maravilhoso excluir da memória uma despedida triste? O fim de um relacionamento fracassado? A morte de alguém?  Uma traição? Eliminar de vez um comportamento corrompido, não aceito pela sociedade; como, por exemplo, um vício? Se fosse possível, você se disporia a receber injeções no cérebro para tal?  Pois bem, os cientistas garantem que os resultados obtidos com os testes nos ratos possam ser semelhantes nos humanos.

Assim sendo, se você respondeu de forma positiva à última pergunta, inicie a sua lista e anote os momentos que você removeria da sua memória, antes que se transformem numa vaga lembrança.

Iniciei a minha, mas, aprofundando o meu pensamento, questionei-me: será que eu seria mais feliz destruindo as más recordações? Isso não seria uma fuga da realidade? Essas lembranças realmente afetam tanto o meu dia-a-dia, ou, ao contrário, enobrecem a minha vida? Por enquanto, decidi rasgar a lista. Não quero cometer os mesmos erros do passado, apagando experiências de vida, que a minha memória insiste em guardar como inesquecíveis. E quanto a você?

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