Fiel aos próprios interesses ou aos de outrem?

As relações estão cada vez mais frágeis; se não, descartáveis. As pessoas começam namoro, terminam namoro, começam namoro; terminam namoro; como quem muda de roupa ou mastiga pastilha. Sem contar que metade dos casamentos termina em divórcio. A maior parte das pessoas não consegue mais manter laços.  Assim, a fidelidade está em baixa no “mercado”: simplesmente esqueceu-se o significado de “ser fiel”; há também quem nunca soube. E você? Por acaso ainda se lembra do que é “fidelidade” ou “ser fiel”?

Fidelidade, pelo latim vulgar fidelitate,  é o atributo ou a qualidade de fiel (do latim fidelis), ou seja, de quem não trai alguém ou algum princípio. É uma “constância”, “perseverança” nas afeições e nos sentimentos; o cumprimento dos compromissos de monogamia assumidos com cônjuge, companheiro(a), ou namorado(a). É o compromisso íntimo que o ser humano assume de cultivar e proteger a relação mantida com outra pessoa e com ela mesma. Envolve uma necessidade mútua de confiança, sinceridade e respeito. Com base nisso e em outros fatores a relação atinge uma estabilidade que, quando alcançada, torna-se difícil de ser quebrada.

Apesar de ser um valor fundamental, uma atitude, uma virtude, a fidelidade só existe onde o sentimento é mais forte do que o instinto, uma vez que ser fiel requer renúncias. Resignar pensamentos e desejos não significa, obrigatoriamente, eliminá-los. Se uma pessoa inicia uma relação por vaidade ou prazer; para melhorar a posição social ou por interesse financeiro, está sendo egoísta: não tem a menor noção do quanto está disposta a renunciar,  ou mesmo, se realmente pretende abdicar a algo. Seguindo tal raciocínio, fica claro que o  relacionamento perde o foco, encontrando-se fadado ao fracasso. Observe-se o caso real, abaixo:

Uma mulher de família muito pobre, conheceu um homem de classe média alta, iniciando um relacionamento. Durante cerca de três anos o namoro foi perfeito: ela era a pessoa mais carinhosa, mais querida e fiel. Apenas, dizia com frequência que era frígida; mas, havendo amor isso lá importa? Pois bem, ele, apaixonado pela primeira vez na vida, fazia tudo o que estava ao seu alcance para proporcionar à namorada “perfeita” um mundo, que, sozinha, ela nunca teria alcançado. A moça teve o seu diploma em mãos.  Além disso, o namorado fez por ela  uma prova que  permitiu que ela entrasse numa grande empresa.  No entanto, a partir daí, a jovem  mudou o comportamento, ignorando, traindo e maltratando o rapaz, o que fez com que ele terminasse o relacionamento.  Dias após o término, enquanto ele ainda chorava, engolindo baba e ranho, a ex-namorada “perfeita” já se encontrava em festas, dançando em braços de outros homens.

Pergunto: será que essa mulher foi fiel ao ex-namorado? Teria ela iniciado o relacionamento com a intenção real e cruel de tirar proveito material, agindo de forma egoísta; e sendo fiel, sim, aos seus próprios interesses?

O egoísmo é um gigante na ruína dos relacionamentos. Alguém que tenha a sua vida orientada sobretudo para a realização de novas experiências e satisfação pessoal buscará alucinadamente o cumprimento dos seus caprichos e dos próprios interesses, esquecendo-se de ser fiel a outrem. É por isso que, no caso de uma pessoa assim, se o ser fiel a uma outra implicar na destruição ou na deformação da fidelidade que tenha a si mesma, prevalecerá a fidelidade a si.

A fidelidade é uma atitude, uma virtude: depende acima de tudo e sempre de uma firme decisão, que respeite os interesses e objetivos de ambas as partes. Ser fiel para com quem se conviva não é somente a emoção e o gosto de se estar com uma pessoa, mas também, o triunfo de deixar de pensar unicamente em benefício próprio, para considerar o outro.

Portanto, lembre-se de que é possível ser fiel a você e à outra pessoa. As duas coisas não podem excluir-se mutuamente, pois a fidelidade traduz-se na alegria de compartilhar com alguém a própria vida, procurando a felicidade, gerando estabilidade e confiança perduráveis, acarretando como única consequência, o amor eterno.

Whitney morreu, e a “culpa” é das drogas não legalizadas…

Whitney Houston morreu e antes mesmo que a causa da morte fosse divulgada surgiu à especulação de que a sua morte foi originada por uma overdose, isto é, por uma dose excessiva de drogas, o que é compreensível dado o histórico de consumo de drogas pela cantora. O que eu achei de extremo mau gosto foi o cantor Tony Bennett (no palco da festa do produtor Clive Davis) pedir aos presentes que fizessem uma campanha para legalização das drogas, afirmando que mortes como a da Amy Winehouse e do Michael Jackson (ambos dependentes químicos) poderiam ter sido evitadas caso as drogas fossem legalizadas, citando a Holanda como exemplo e isso deixou-me incomodada.

OK! Que a Holanda tem a política de drogas mais liberal do mundo é de conhecimento geral, a sua famosa Lei do Ópio (ou Opiumwet em holandês) não é recente e sofreu mudanças desde a sua origem até 1976 em que foi mais uma vez editada para incluir as novas alterações entrando em vigor em seguida. Essa legislação tem como base a diferenciação entre drogas de risco aceitável (maconha e haxixe) daquelas de risco inaceitável para a saúde e para a segurança pública (cocaína, heroína, anfetaminas e LSD). O álcool, considerado uma droga de risco alto, é legal e controlado pelo governo.

Dessa forma, é correto dizer que maconha e o haxixe são drogas toleradas (não liberadas porque, por exemplo, não é permitido fumar em lugares públicos) e que as outras drogas (de risco inaceitável como cocaína, heroína, LSD e anfetaminas) são expressamente proibidas e reprimidas, assim como a sua posse, o comércio, o transporte e a produção, visto isso, não consigo entender porque as pessoas insistem em citar a Holanda como exemplo quando falam da “legalização” das drogas.

Até onde eu sei (posso estar enganada) nenhum desses famosos (Elvis Presley, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Michael Jackson, Amy Winehouse entre outros) morreu de overdose de maconha, por isso não entendo porque na hora de promoverem campanhas de descriminalização e despenalização de drogas as pessoas insistem em utilizar a Holanda como exemplo, um país onde as principais drogas (responsáveis pelas mortes por overdose) permanecem proibidas, um país que em que a tolerância ao uso da maconha, que mirava a redução da criminalidade, prevenção da dependência química e segurança da sociedade, teve o efeito contrário do que inicialmente foi almejado, visto que uma das consequências mais terríveis da permissão do uso da maconha foi o crescimento exponencial da criminalidade. A situação é tão alarmante que desde 2008 a Holanda tem planejado mudar a sua politica de drogas; o governo holandês pretende endurecer a lei proibindo as famosas growshops (lojas onde os clientes podem comprar sementes e outros artigos para cultivar maconha dentro de casa), assim como impossibilitar o cultivo caseiro da cannabis impondo duras sanções a quem não obedecer à legislação.

Essa necessidade de mudar a politica de drogas repentinamente deve-se ao fato de que não só o crescimento da criminalidade é assombroso, mas também, porque desde 2002, a quantidade de jovens viciados quadruplicou havendo necessidade de construção de mais centros de tratamento para atender a demanda, mas você provavelmente não sabia disso, assim como o Tony Bennett.

Não obstante eu poderia escrever por horas a fio sobre a legalização das drogas na Holanda e como isso fracassou, ainda assim, apesar da realidade por muitos desconhecida (por mim apresentada nos parágrafos anteriores) iriam aparecer vários Tony’s Bennett’s a favor dessa legalização citando o que acreditam ser êxito da Lei do Ópio holandesa, achando que a legalização das drogas iria evitar mortes por overdose, o que não passa de uma hipocrisia, pois jamais esses famosos que insistem em se drogar iriam assumir o vicio, e sim, iriam continuar escondidos e se esgueirando pelos cantos para obter drogas e não ir aos médicos como sugeriu Tony Bennett na sua nada sábia defesa de legalização das drogas ou você acha mesmo que  a finada Janis Joplin iria com seu kit de drogadição para a fila das salas especiais para viciados para injetar heroína sob supervisão médica? Bem, eu acho que não…

Lista com alguns famosos que morreram de overdose:

Amy Winehouse (2011)
Billie Holiday (1959)
Elis Regina (1982)
Elvis Presley (1977)
Heath Ledger (2008)
Janis Joplin (1970)
Jim Morrison (1971)
Jimi Hendrix (1970)
Marylin Monroe (1962)
Michael Jackson (2009)
Paul Gray (2010)

Janeiro, Fevereiro e Março – A praga do BBB

Os Reality shows – programas baseados na vida real – foram crescendo em popularidade com o passar dos anos e parece que essa tendência não irá abrandar, não tão rápido quanto gostaríamos. A verdade é que esses reality shows parecem se multiplicar semana após semana, aparecendo com conceitos diferentes. É rara a rede de Televisão que não tem um reality show em sua programação, e por, mais que exista uma massa que não vive sem este tipo de programa, ainda existem algumas pessoas como eu, que “odeiam” essa tendência.

Eu seria hipócrita se dissesse que odeio todos os reality shows – aliás, odiar é uma palavra muito forte, digamos que eu não gosto deles – mas para ser honesta eu até assisto um ou outro quando cruzo com eles enquanto troco de canais, assim como The Aprenttice (O Aprendiz) exibido atualmente pela Sony Entertainment Television; Top Chef exibido pela Bravo TV, ou até mesmo o What Not to Wear exibido pela BBC.

A questão é que os reality shows referidos anteriormente, apesar de na sua essência premiarem acontecimentos que retratam o fruto da realidade (não vou entrar no mérito dos scripts e das farsas), e visarem historias reais, não são tão medíocres quanto o Big Brother, que no Brasil atende pelo nome de Big Brother Brasil, vulgo o BBB.

O “Grande irmão” mais conhecido como Big Brother criado pelo holandês Johannes “John” Hendrikus Hubert de Mol, que tem como base no romance escrito por George Orwell é um programa que tem como alicerce a constante vigilância de pessoas reclusas sem contato com o mundo exterior. No Brasil tem duração de cerca de três meses e o grupo participantes (em regra menos de 15 pessoas escolhidas por um processo que de seletivo nada tem e bastante duvidoso) são tão anódinas quanto o programa em si, são pessoas que alguns chamam de “polêmicos” eu particularmente chamo de fúteis e inúteis, pois eu não sei como garotas de programas e atores pornôs não assumidos podem acrescentar algo a minha vida cultural. Tampouco machistas e homofóbicos.

Repleto de participantes ordinários, duvidosos lutando por minutos de fama, aos quais não fazem jus de modo algum, o BBB é o ponto mais baixo que a indústria do entretenimento já chegou, é uma apologia à mediocridade (palavras de Paulo Schimdt), que permeia a falsa moral daqueles que assistem. E esse é outro problema, outra praga, a dos fãs desse programa sofrível, meão. Mas, também com o marketing que a respetiva rede de televisão faz como podem as pessoas não ficar curiosas e até mesmo assistir? Começa nos intervalos dos comerciais, do telejornal, na internet e por aí vai.

Assim, é quase impossível ficar-se isolado e alheio a essa frivolidade que ocupa a vida de milhares de fãs de Janeiro a Março. Afinal, aqui entre nós, você pode até não assistir a esse monte de dejetos, mas sim, você sabe quem foi o campeão da última edição! Eu sei quem foi e eu nem o canal onde passa essa mediocridade assisto, MAS seus amigos assistem, seus colegas da faculdade comentam, seu Facebook e Twitter são inundados por posts e por aí vai.

Mas, tudo bem eu até entendo que uma grande parte da população brasileira goste e ostente tal programa. O que me deixou com os cabelos em pé literalmente, foi quando em Março de 2011 descobri que o fanatismo a esse programa que agora me recuso a escrever o nome, ultrapassava fronteiras. Como assim ultrapassa fronteiras?  Você deve estar se perguntando… Simples, com o advento da Rede Internacional de TV (a partir de satélite), essa mediocridade é exportada diretamente para a TV de angolanos e portugueses, que passaram a idolatrar tamanha futilidade, transformando esse reality show numa praga que está longe de ser contida e exterminada, por isso prepare-se, pois Janeiro vem aí, com mais uma edição do Big “Bosta” Brasil para deliciar os olhos de outros tão medíocres quanto os participantes do programa.

Vídeo da saia justa do Pedro Bial com Boni no programa “Altas Horas”

Ano novo vida nova – A santa promessa anual

“Ano novo, vida nova” é o que você ouve e diz todos os finais de ano, sem sequer refletir sobre o verdadeiro valor de tal frase. A santa promessa, anual, de que no novo ano tudo será diferente, de que o “velho” dará espaço para o “novo” não é mais novidade. E com a cabeça transbordando de ideias você, eu e muitos outros passamos os últimos dias do ano ansiosos, com o começo do próximo, para cumprir tal promessa.

A maioria esmagadora inicia o novo ano com a auto-análise debitando os fracassos e as decepções do ano que passou, e creditando no ano novo a esperança e os sonhos. Muitos ficam tão envolvidos com o ditado, em questão, que chegam a fazer listas com metas profissionais, amorosas, dietas, etc., que dificilmente saem do “papel”; isso para não dizer, do arquivo de texto do computador. Outros mais empenhados – uma minoria – imprimem, recortam e carregam o cardápio de objetivos, na carteira, como amuleto da sorte, para não esquecerem.

A realidade é que, os meses vão passando e, nos distanciamos, cada vez mais, do que nos propusemos, no final do ano anterior, e concluímos que sim, o ano é novo, mas a vida é a mesma; os horários de sono permanecem trocados; as bebedeiras e ressacas são iguais ou piores que as passadas; a infidelidade e deslealdade ainda se fazem presentes, entre os que mais amamos – assim como a despesa, mensal, da academia que jamais fomos, a dieta que também não conseguimos cumprir. Isso para não falar daquela promoção no trabalho que o chefe prometeu e vive sendo adiada.

O problema é que, quando finalmente nos apercebemos disso, adivinhe só? O ano já terminou e mais uma vez você, eu e muitos outros entendemos que de nada serviu deixar as decepções e os fracassos no passado, porque eles fazem e sempre farão parte da nossa vida e que a vida é feita de altos e baixos. Ainda assim, seguimos em frente e, mais uma vez, com a proximidade do “novo” repetimos a santa promessa anual e nos obrigamos a acreditar pela milionésima vez no ditado: “Ano novo, vida nova”.

Mas por que isso acontece? Por que acreditamos que, no início de cada ano, será possível “formatar” o passado e nos reinventarmos através de metas pré-estabelecidas? Será cultura de renovação da nossa sociedade, essa teoria de mudança ilusória que se repete ano após ano e apenas nos certifica de que as metas nada mais são que fantasias.  Você não acredita que antes de se debruçar sobre metas e promessas, deve se questionar sobre o seu desejo de mudança?

Pois bem, não sou especialista no assunto, mas, por experiência própria, sei que o anseio de mudança deve ser verdadeiro, real. Você precisa querer tornar-se diferente – física ou moralmente – para que tal mutação aconteça, de forma qualitativa e significativa, na medida em que você pode até traçar metas, mas se não tiver coragem de olhar para si mesmo e se permitir mudar; simplesmente repetirá os mesmos erros do passado, não obtendo o que você planejou.

Como você pretende levar algo adiante, se a sua atitude, o seu comportamento; permanecem os mesmos? Você apenas buscou uma inspiração externa para conseguir algo, não fazendo o mais importante que é a mudança interna lenta e gradual.

É por isso que o processo de transformação deve partir de dentro para fora e não de forma contrária, pois você pode até conseguir alcançar um objetivo ou outro, mas digo-lhe: as chances de manutenção serão nulas. Você não se preparou para isso. E, assim, acabará por acumular um fracasso atrás de outro. Não é isso que você quer. Afinal, embora saiba que aquelas decepções e fracassos do passado o tenham trazido até este ponto e tenham, de alguma forma, contribuído para a pessoa que é, devem ficar para trás permitindo uma abertura para o novo, para o futuro.

Você não pode querer ser diferente por ninguém e para ninguém, a não ser para si mesmo. Não deve seguir a tendência de “todos” com a criação de metas ou prática de mandingas, muito menos atribuir tal transformação à passagem do ano; você deve, sim, mudar em cada oportunidade e possibilidade cotidianas, relembrando, sim, os insucessos, mas colocando em prática o que aprendeu com eles e, acima de tudo, parar de repetir “Ano novo, vida nova”, a cada novo ano que se inicia. Acho mesmo que, só assim, esse anexim, essas palavras ao vento, poderão se transformar em realidade e você, eu, nós consigamos uma “vida nova”, o ano inteiro e não apenas uma santa promessa anual.

Não sei se real ou, apenas, imaginário, o ano novo renova as energias, mostra que pudemos novamente iniciar um caminho de sucesso. Agora, sejamos pragmáticos: Como querer que tudo seja bom, se não trilhamos este caminho no nosso dia a dia? Não lembro se Sócrates ou Maomé, mas já haviam dito: “As escolhas que você fez no passado, te trouxeram onde você está hoje. Mas as que você fizer, agora, te levarão a um futuro que você nunca imaginou”.

Afinal, como já lembrou o poeta Carlos Drummond de Andrade, na sua Receita de Ano Novo:

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre”.

*Agradeço as sugestões e opiniões dadas por Vicente Freitas no desenvolvimento desse artigo.

Por que não podemos simplesmente nos formatar?

Apercebi-me que, por mais lembranças que tenhamos, sempre nos remontamos às recordações mais tristes ou que nos fazem sofrer. Algumas nos conseguem transportar a lugares onde estivemos no passado, coisas que vivemos. Por vezes, também acordamos imagens adormecidas. Infelizmente, a memória não se apresenta a nosso bel-prazer. Por conseguinte, vamos tentar compreender um pouco mais sobre o conceito, sua forma de funcionamento e o que a ciência nos reserva para o futuro.

O conceito “memória” pode ser confuso e complexo, variando com a especialidade a ser aplicado. Desta forma, vamos analisar o termo, inicialmente, em lato sensu.

A palavra “memória” vem do latim memória.  Significa“lembrança”, “recordação”, “reminiscência”. Trata-se da faculdade de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente. Consiste na capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações disponíveis no cérebro. Tem como foco coisas particularizadas, necessitando de grande energia mental.  Deteriora-se com a idade. De acordo com estudiosos, a memória é o principio do conhecimento.   Portanto, deve ser treinada e estimulada, com o objetivo de formar novas ideias e acumular experiências, permitindo-nos tomar decisões diárias.

Existem basicamente dois tipos de memória:  a declarativa, que se subdivide em imediata, de curto prazo e de longo prazo. A outra é a memória de procedimentos. Esta última seria a capacidade que temos de conservar e processar informações que não possam ser verbalizadas. Tem maior estabilidade, apresentando menor grau de detrimento. Um exemplo característico desse tipo: quando aprendemos a andar de bicicleta, mesmo se ficarmos anos e anos sem andar, não perderemos a capacidade de fazê-lo. Verdade que, até andarmos em linha reta de novo, estaremos susceptíveis a alguns tombos; mas, o fato é que uma vez aprendido, não esquecemos.

Esclarecendo um pouco as subdivisões da memória declarativa: a imediata é aquela que tem duração de frações de segundos, como a repetição do número de telefone, imediatamente após ser ouvido. Este acontecimento é esquecido depois de um determinado tempo, uma vez que este tipo de memória tem limite na sua duração e pouco “espaço” de armazenamento. Porém, não vamos confundir com a de curto prazo que, retendo algumas informações, demora algumas horas.  Por isso, somos capazes de nos lembrar do que vestimos no dia anterior: assim, não vale ficar dois dias seguidos com a mesma roupa, sob a alegação de esquecimento.

Chegamos agora à memória de longo prazo, a que pode nos causar tormento ou alegria, por dois motivos: além de ter duração de meses, anos ou ilimitada, também tem capacidade de armazenamento sem fim. É aqui que se encontram as lembranças da nossa infância, do que aprendemos na escola ou da morte de um ente querido. Nela, residem lembranças boas e ruins, algumas que gostaríamos de guardar para todo o sempre; e outras, que preferiríamos esquecer ou simplesmente apagar.

Bom, eu não sei quanto a vocês, e pode até soar engraçado, mas confesso que já pensei várias vezes que gostaria de me formatar. Sim, isso mesmo, como se fosse um computador: deletar da memória tudo o que é desagradável.   Embora, eu até ficasse feliz em organizar a minha memória em pastas, e apenas utilizar o sistema de arquivo oculto.  Você já parou para pensar nisso? Por que não podemos simplesmente nos formatar?

Um pouco de esperança: cientistas, através de testes realizados em ratos (para variar), comprovaram que é possível fazer com que o cérebro apague lembranças indesejáveis. E sabem o que é melhor? Os ratos que receberam injeção, com fim de apagar o que haviam aprendido, foram capazes de aprender novamente, mostrando que o procedimento não causa problema algum à memória.

Agora pense… Não seria maravilhoso excluir da memória uma despedida triste? O fim de um relacionamento fracassado? A morte de alguém?  Uma traição? Eliminar de vez um comportamento corrompido, não aceito pela sociedade; como, por exemplo, um vício? Se fosse possível, você se disporia a receber injeções no cérebro para tal?  Pois bem, os cientistas garantem que os resultados obtidos com os testes nos ratos possam ser semelhantes nos humanos.

Assim sendo, se você respondeu de forma positiva à última pergunta, inicie a sua lista e anote os momentos que você removeria da sua memória, antes que se transformem numa vaga lembrança.

Iniciei a minha, mas, aprofundando o meu pensamento, questionei-me: será que eu seria mais feliz destruindo as más recordações? Isso não seria uma fuga da realidade? Essas lembranças realmente afetam tanto o meu dia-a-dia, ou, ao contrário, enobrecem a minha vida? Por enquanto, decidi rasgar a lista. Não quero cometer os mesmos erros do passado, apagando experiências de vida, que a minha memória insiste em guardar como inesquecíveis. E quanto a você?

Se

Se eu fosse o vento,
Sentirias minha carícia.
Se eu fosse a chuva,
Em mim tocarias.
Se eu fosse uma flor,
Meu cheiro sentirias.
Se eu fosse teu sorriso,
Nunca chorarias.
Se eu fosse a tua música,
A mim ouvirias.
Se eu fosse o teu destino,
Tu me encontrarias
Se eu fosse a tua musa
Aqui estarias.

Coração partido ou Mente partida?

A expressão coração partido é trivial para aqueles que sofrem, já sofreram ou até mesmo sofrerão desilusões amorosas (ninguém está livre disso).  Portanto, todos nós já dissemos, pensamos, ou ouvimos incessantemente fulano dizer que “está de coração partido” ou que “sicrano partiu o meu coração em pedaços”.

 Após escutar vezes sem fim tais expressões, decidi perguntar por quê. Por que o coração é o órgão eternamente ligado ao amor?  Por certo, ninguém associaria o amor a um órgão qualquer, como o intestino, por exemplo, cuja função está vinculada à eliminação das fezes.  Porém, por que não unir o amor ao cérebro?

Por outro lado, não pensemos que a aliança seja recente. Nas culturas mais antigas, o coração já se encontrava ligado às situações de cunho emocional, pois além de não conhecerem a função do cérebro, o coração era o único orgão cujo funcionamento variava de acordo com as emoções. Os antigos romanos tinham a certeza de que a memória tinha assento no coração. Da mesma forma que os hebreus pensavam que a consciência estivesse nos rins. Maravilha não? Continuando, que tal fazermos uma comparação entre o coração e a mente, para mais esclarecimentos?

O “coração” é um vocábulo de etimologia incerta. Do latim cor, cordis, desenvolve-se para cordial, acordar, discordar, recordar, recurso, coragem e misericórdia. Aliás, “recordar” é fazer passar novamente pelo cor.  Por outra parte, do grego kardia desenvolve-se para cardíaco, cardiograma, endocárdio, pericárdio e outros termos médicos.

Metaforicamente, pode ser considerado como a sede dos sentimentos, das emoções, até mesmo da consciência; mas, apenas de forma figurada.  Quanto à anatomia, o coração é um músculo oco; o órgão central do sistema circulatório, sendo responsável pelo percurso do sangue bombeado através de todo organismo.

Por sua vez, a palavra “mente” vem do latim mente, de mens, “espirito”, “intelecto”, “pensamento”, “entendimento”. Em lato sensu, seria o estado da consciência ou subconsciência, relativo ao conjunto de pensamentos.

De acordo com a jornalista norte-americana, especializada em ciência,  Sharon Begley “O cérebro é a estrutura física, o pouco mais de 1 quilo de tecido biológico dentro da cabeça. A mente é o resultado do funcionamento do cérebro: os pensamentos, os sentimentos e as emoções”.

Já para o dicionário técnico de psicologia de Álvaro e Nick (1979), mente “é o sistema total dos processos mentais ou atividades psíquicas de um indivíduo”.

Observando e comparando os conceitos acima, faz-se perceptível que o “amor” existe na nossa mente; não, no nosso coração. Tudo bem, todos sabemos: sempre que estamos dominados por uma forte emoção, como de amor e prazer, os batimentos cardíacos se alteram. No entanto, isso não significa que o coração seja a sede do amor. Se pensarmos assim, qualquer dia aliaremos o amor aos genitais, não? Afinal, os genitais também passam por alterações em decorrência das excitações provocadas pelo sentimento.

Por fim, investigadores da Universidade da Flórida, nos EUA, especialistas em neurociências, conseguiram provar que o amor está no cérebro e não no coração.  E, segundo alguns pesquisadores, em breve será possível treinar o cérebro para aumentar a felicidade e a compaixão.

O que me intriga é: por que nós, em pleno século 21, acostumados com novas descobertas, insistimos em utilizar conceitos, mantidos durante séculos como únicos, que não correspondem à realidade? Por que não dizer que “fulano partiu a minha mente” ou que “sicrano deixou a minha mente em pedaços”? Que tal um pouco de realidade?  Então, paremos de acusar o pobre coração, cuja função é limitada, valorizando mais a nossa mente.