Por Adriane Dias Bueno

Vaguidão

Vaga onda,
vaga sombra,
vaga ânsia:
insânia

Vasto mar,
vasto olhar,
vasto almejar:
sufragar.

Vago vento,
vago passeio
vago pensamento:
desfeito…
refeito…
perfeito
enredo…

De corpos,
de beijos,
de gozos intensos.

Medida Exata

Eu quis tanto
tanto
que não me importei
em machucar os pés
na escalada ingrime.

Eu desejei tanto
tanto
que não reparei
na cor sangue
escorrendo pela rua.

Eu sonhei tanto
tanto
que não percebi
quando o dia chegou
e com ele a realidade.

Eu renunciei tanto
tanto
que apenas me sobrou
o consolo de ter
recebido o pouco
que merecia

Nem um pouco a mais
Nem um puco a menos

Simplesmente a exata medida
de algo que não existia.

Eu apenas quis tanto
tanto
que não tive nada
Nada restou para desejar…

Apenas o esquecimento
se este for algo
possível de se alcançar.

E, no entanto,
eu quis…
ah! eu quis tanto.

Areia na Garganta

Ansiedade
Ansiedade
E o tic-tac do relógio
Explodindo a cabeça
O mundo vai acabar
Em um segundo
Mesmo assim o corpo
Fica imutável no espaço

Tic-tac
Tic-tac
Fica o cérebro zunindo
E a marcação do ponteiro idiota
que não para mesmo quebrado

Ansiedade
Ansiedade
Dentes trincados
Dedos atrofiados
O cuco já saiu pela portinhola
A sensatez anda nua pelas ruas
E o ser alucinado
Ainda pensa em roer as unhas
Degustar a última ceia
Ler a última frase
Ouvir a última música
Amar pela derradeira vez

Tic-tac
Tic-tac
A cidade explodiu
Mas o corpo ansioso
surdo
cego
mudo
Ficou perambulando
Sem destino certo
Com a sensação
De areia seca na garganta
Desejando dizer e viver
O que nunca sentiu.