Por Lívia Paixão

Nem sempre o que se vê é real…

Era uma da manhã e os pirilampos crepitavam quando passavam pela relva. Mostravam alguma definição onde acabava a faixa e começava o mato do Alentejo.

Mesmo sendo noite, agosto não deixava de demonstrar que o calor era quase como um passeio ao inferno. Quente, desconfortável e suado ao ponto de deixar uma pessoa mal-humorada, até mesmo ser considerada um diabrete inconstante.

Pela estrada fora guiava um homem, que enervado do quente, abriu todas as janelas do automóvel.

– Ar-condicionado da merda! – Bateu contra os botões digitais na esperança que fosse sair mais ar frio.

O rádio estava no volume baixo e tocava uma música suave, para controlar o seu estado espírito. Já estava irritado o suficiente para estar acordado e não queria, inconscientemente, que o pé ficasse pesado.

Cantarolou uma música, praguejou quando os mosquitos foram contra a janela e irritou-se ao tentar limpar com o para-brisas. Mesmo a esguichar a água, os pontos nojentos ficavam colados no vidro.

– Mosquitos do inferno! Ainda por cima gordos! – A cabeça aproximou-se para ver as minúsculas sujeiras, mas deveras incomodativas. – Está ali alguém? – Pestanejou e voltou a encostar-se no banco.

Das últimas coisas que ele poderia imaginar, era encontrar um rapaz a caminhar de tronco nu e de mochila às costas no meio do nada. Abrandou para ter a certeza que não estava a ter um delírio de solidão…

Os passos do rapaz eram exaustos, este já não caminhava, arrastava os pés e muito lentamente.

Na incerteza se deveria parar, lembrou-se da pior coisa àquela hora. O mito da rapariga a pedir boleia. O corpo eletrificou-se por segundos e sacudiu a cabeça. Era um rapaz cansado e nem estava a pedir boleia, por isso não podia assumir que era mesmo um fantasma a deambular por ali.
– Coitado já nem deve ter sola nos sapatos… – O condutor fez sinal de luzes e abrandou. O rapaz virou-se e pôs a mão á frente dos olhos para não se encandear. Quando percebeu que era para ele, rapidamente fez sinal com a outra mão para pedir boleia.
– Não vá embora! – Gritou como se estivesse entre a vida e a morte.

O senhor, observou-o, mas não parou logo. Continuava ainda um pouco hesitante e queria primeiro ver o aspeto de frente do miúdo. Tinha que ter a certeza de que não era um perigo na estrada.

O rapaz desesperou quando viu o carro a passar por ele, das poucas forças que lhe restavam, acelerou os pés. A mão esticou para apanhar a maçaneta, porém nem as pontas dos dedos conseguiram tocar no que é que fosse. Sem perder a esperança, passou a estar nas traseiras do automóvel e a abanar as mãos para este parar.

O carro travou a fundo. Ouviu-se os pneus e depois um embate!
– Que aconteceu?…- O rapaz parou de súbito para não chocar contra a traseira do carro. – Está tudo bem?
– Ainda quer boleia? – O homem espreitou pela janela.
– Sim… Mas não vai ver? – Anuiu.
– Foi a mala de viagem. – Sorriu.

O miúdo olhou-o e inspirou.  A hipótese de passar outro carro por ali era nenhuma…. Expirou e entrou para os assentos de trás. Acabou por não fazer questões, por causa do cansaço e do milagre que acabou de obter. Nunca ele pensou que iria ter boleia por ali.
– Conhece alguma estadia? – O rapaz perguntou e depois espreitou pela janela atrás de si.

Um homem morto no meio da estrada!

– Está um homem no chão! – Avisou olhando de súbito para o senhor.
– Não tem não. – Respondeu confuso.
– Tem sim! – Franziu a testa ao senhor e quando voltou a olhar para a estrada, toda a sua indignação transformou-se em choque!

Não tinha nada. O corpo já não estava na estrada…

Voltou a olhar para o condutor. Desapareceu!

Ficou pálido! As mãos procuraram abrir a porta, mas não era possível! A maçaneta tinha sido partida e arrancada. Foi ao trinco para abrir e também estava danificado. Os dedos frenéticos procuravam por uma saída!

O motor acelerou e o conta quilómetros aumentou! Se saltasse pela janela morreria…

Assustado com o desaparecimento do condutor, esgueirou-se entre as cadeiras da frente e tentou agarrar o volante. Viu o pedal do acelerador a ser pressionado a fundo sem qualquer espectro visível.

Gritou! O medo fulminante ecoou pela estrada e viajou pela floresta escura.

Sentiu um empurrão forte para longe do volante e viu num segundo o homem ao volante!

Carro derrapou!

A última coisa que olhou foi uma árvore…

Ao lado da árvore estava um ramo de flores e uma campa de mármore…

“João Fonseca,

Marido fiel.

24 de maio de 1978 a 20 de agosto de 2017.”

Excerto tirado do jornal:

“Atropelamento, fuga e acidente.
As provas foram suficientes para a esposa da vítima, Catarina Fonseca, receber indemnização.
Fernando Gomes, o acusado, não parou para auxiliar a vítima e na aceleração da fuga, derrapou e faleceu no embate contra a árvore. Ainda não se encontrou o corpo.”