Por Raul Augusto

Ela, todo dia…

De manhã, quando vou tomar café
Ela me olha e me diz:
– Bom dia, Raul!
E eu respondo sonolento:
– Pra você também!
E ela continua, puxando papo…
– Já viu como estou?
– To vendo! “Linda!”
– E aí, vai me deixar assim? Não vai fazer nada?
– Ta bom! Calma! Já volto aí…
E às vezes, nem volto, ou, só volto muito mais tarde…
Deixando-a esperando…
De repente, me lembro dela. Aí eu volto.
Olho bem pra ela. Olhando olho no olho!
E aí eu conto até dez, respiro bem fundo…
E encaro… A pia da cozinha…

Imagem Enganada

Visto assim na foto,
no desenho do artista.
A imagem refletida
de uma certa distância,
até parece uma flor
estampada ali na tela.
Mais de perto, entretanto,
aquela figura estranha,
lembrando mais uma aranha,
triste realidade
a sua imagem revela.
Constante pavor na favela
e no asfalto também.
Merece sim uma vela,
uma prece, uma oração.
Aquele buraco de bala,
na vitrine
perfurado.
Aquela bala perdida,
por sorte não ceifou uma vida.
E mesmo sem ser assassina,
causando medo e estupor.
Graças a Deus
desviou no vento,
ricocheteou no tempo.
Até furar a vidraça
sem causar maior desgraça.
E… Não matou ninguém.
*Raul Augusto Silva Junior, também conhecido como Rakyul, carioca. É artista plástico e escrevedor de palavras. Iniciou seus estudos de desenho cedo, na Escolinha de Arte do Brasil, de Augusto Rodrigues, artista plástico e chargista da Ultima Hora, e primo do Nelson Rodrigues. Participou das Antologia ControVersos (Rio de Janeiro: Editora Sapere, 2011).  Também escreve contos infantis e aguarda publicação.