Por Daniel Fonseca

Aresta

Tudo que há em mim agora lhe pertence,
que sem pedir licença entrou por aquela porta
e abriu as portas do meu armário
e revirou tudo que lá dentro eu tenho.
E não se satisfazendo, foi até a cozinha,
encheu um copo jogou água sobre meu rosto,
deixando-me mais escorrido por fora do que estou por dentro.
Pegou-me pelos braços e arremessou-me na cama,
beijando-me a boca com força e arrancando meus cabelos
como se quisesse arrancar meus pensamentos,
descobrir o que eu pensava do seu atrevimento
permitido e provocador.
No meu corpo toda dor. No meu peito todo amor.
Agora não adianta ir embora, você veio para ficar,
e daqui você não sai, ou será que daqui até a eternidade
não saberemos mais identificar
o que somos ou de quem somos? Não diga isso!
Cala a boca e me beija a testa! Não quero sua festa,
quero seu sexo, seu olhar que não me contesta,
suas mãos que sempre sabem onde chegar,
mesmo que a gente não saiba nosso lugar,
mesmo que de toda embriaguez saia um vômito
ao invés de gozar.

Gota

Você sujou meu nome por aí,
como se eu fosse um lençol que se deita
e depois amassado fica, mancha e rasga.
Você não quis me poupar do constrangimento
que fiquei a disposição da mentira, dor e sofrimento.
Você não quis me alertar sobre a verdade,
mesmo sabendo que dela eu precisava pra ficar tranquilo.
Mas de tudo isso só me veio uma lágrima, de sangue, puro sangue.
E a água que esperei cair, pingar, e inchar os meus olhos,
sumiu, secou e nem deu sinal de vida.
Só de morte.
Meu sangue derramado pelo rosto,
e minhas lágrimas pelo chão, em algum lugar,
em alguma calçada retangular de pedras portuguesas a beira mar.