Por Neto Dias Antonio Muhindo

O enterro das palavras

Neste enterro das palavras
arranco a carne que me dá a vida,
parto para a acidez clínica dos olhos
buscando desejos já enterrados,
parindo seres nos olhares do barro
e da terra que pulsa a vida.
Busco nas entranhas do impossível
a métrica sanguinolenta da realização.
Cada ser pare um ser sem luz,
cada ser mata uma luz,
cada morte traz um túmulo vivo:
vivo de facas,
vivo de pombas,
vivo de desejos por detrás da luz.
Só as lágrimas podem ser as nossas luzes
quando o escuro bate à porta,
quando o bem é a vontade do mal e a sorte já está morta,
quando a vontade traz o mal e a morte já esta solta,
Neste enterro das palavras
não há ressurreição,
mas assim o retorno do verbo à matéria.
Só a carne interessa na visão do desejo…

O Gatilho da Sombra

Traga-me o sangue que jorra no silêncio
a morte que paira no templo
traga-me as correntes ensanguentadas do tempo
os destroços do sexo ferrando na lua
traga-me a paz nua vestida de luz
o mel que verte para fonte do fel
a luz por detrás da luz.
Traga-me o claro que se vê pelo escuro
o desejo suado
traga-me a serpente sem veneno
do cio das palavras
traga-me a ira de ser só um ser
traga-me a noite dos dias que foram
traga-me o dia das noites que faltam
traga-me os morcegos que flutuam nos meandros do pensamento
Traga-me o gatilho da sombra.
Agora sim!!
partamos para o sangue que gera sangue
partamos para o fumo que mata o fumo
entremos para o cíclico centro da definição.

VidaAnónimas

Há mortos em pé no silêncio
Vazios de luz
Mastigando ambições nos seus pestanejos
Cadáveres andantes
Com almas pendentes
Afrontados no imo da dor
Jazem na poesia do suor
Sem poros e de choro estéril.

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