Por Rosane Ramos

Amor

Eis que amor vai lambendo a fera
e a fera adormece em seu furor
e o furor se condensa numa esfera
lânguida e úmida de um calor
próprio da espera e do querer
contra todo tempo que se espalha
sobre palavras próximas e contrárias.
(Isso de querer e de esperar
o tempo estúpido de cada espera
é mais que amor, é a própria cela
de superfície circular e vária.)
E ainda descobrir que a fera amansa
com gemidos e sussurros quando larga
fora de si mesma o que alcança
num ante-salto sobre tua ilharga.
Nunca, nunca lembrar o que foi dito,
que amor é um isso que não se diz
e é sempre, quase sempre por um triz
que não se confunde com valsa ou lâmina
o que chamamos de amor e é além:
iguais o desejo, o conflito e o segredo
vazando num romper de grades
e o lúcido, o tácito, o maldito
hábito de enlouquecer as tardes.

Ao rés da fala

O quente, o úmido, aquilo que é dissonante
une a morte à vida, o duradouro ao instante.

Com visões, gurus, sentires, ninguém se importe:
gigantes de fumaça engolem o fraco e o forte.

E o áspero, o gozoso, tudo o que é delirante,
quem sabe invente o longo caminho adiante,

enquanto o tempo anula a fala mais rente,
antes da noite nascer para o dia, e mente

a possibilidade tola do flagrante.
E quem acredita no salto do elefante?

Também no homem que, entre muros, só, medita
o terror de desabar com as palafitas?

A matéria apaga o tempo consoante
àquilo que anuncia – em memória de Rocinante

vou parindo um deus que consola e sacia
o corpo da amante colado à segunda via:

a tal que finge a fera escura e semelhante
a ti, acendedor desta lua caminhante.

E se encontrares na avenida único grão,
come. Um homem ofegante luta, e então

é preciso apagar-lhe o fogo num rompante
de voz – um canto congelado doravante.

Ah! perdem-se todas as verdades e no entanto
diante do som das horas enorme espanto

engendra o que não sejam grades. Um passante
dá-me as costas e se eterniza numa cena elegante.

Manhã de pérola na vulva das ostras
e tudo o que é macio, tudo o que está à mostra

vaza num verso desfeito em rio. O hierofante
carrega os mistérios e os condensa, ignorante

do que sejam a guerra e a conquista. E é sério
o nada gotejante deste fogo aéreo

que perdura como lava no habitante
estrangeiro deste corpo e constante

como um jogo de dados fingindo a cabala:
de Pessoa a Dante, eis-me, ao rés da fala.

Depressão

Acordou mas não quis abrir os olhos. Se olhasse ao redor, imaginou, tudo estaria fora de lugar. O armário antes tão arrumado teria encenado uma dança louca e espalhado as roupas pelo chão certamente. As pesadas cortinas farfalhariam como bailarinas. Todo o seu mundo de pernas para o ar. Não, não poderia abrir os olhos. Queria o anteontem, antes de ir ao médico, antes de sentir-se quase cega. Por que fora ao consultório se agora não queria ver o seu mundo tão mudado? Melhor seria cegar de vez do que forçar os olhos a não se abrirem, sim, porque eles têm vida própria, os olhos. Querem abrir-se, ver, perscrutar o ambiente, encontrar essa vida nova que se inicia pela manhã, agora, depois do que disse o médico. Luto com valentia, aperto os olhos até doerem e eu começar a ‘ver’ luzinhas dançantes. Até de olhos fechados as coisas dançam a minha volta. Eu não quero isso. Quero minha vida regular, exata, de linhas retas. Lola diz que sou dada às amarguras, que meu humor é amargo, seco, insiste que preciso ser mais leve, mais doce _ os olhos começam a piscar teimosamente. Talvez ela estivesse antecipando o que viria acontecer. Penso num ditado: cala-te, boca! No meu caso, precisaria dizer: fechem-se olhos!, pois já não podia mais contê-los. Abriram-se contra minha vontade. Tudo embaçado. Abro e fecho, abro e fecho, até me acostumar à luz que entra por uma fresta da cortina. Tudo está como antes: gavetas fechadas, roupas guardadas, cortinas corridas, a não ser por esta pequena fresta de luz novidadeira que ora me cega ora me mostra o mundo até que me acostume com ela. Talvez seja assim a partir de agora. Luz e dança e doçura, como quer Lola.

Começo o dia sempre com o pensamento na escuridão. Arrumar, cozinhar, preparar-me para o trabalho, rever documentos, assinar papéis, deixar a mesa do escritório impecável para o dia seguinte, dirigir, guardar o carro, tomar banho, ouvir os resmungos do pai, tudo automaticamente, como se a vida só começasse quando me deitava e fechava os olhos. Lá, no escuro dos olhos, podia sonhar. Imaginar rios de águas coloridas correndo sob meus pés que não estariam tão presos. Imaginar pássaros de plumagens lilases e amarelas comendo em minhas mãos, antes tão diligentes, agora inúteis para o que fosse construível.

Enfim, meu quarto. Minha cama. Meus lençóis. Deito-me e fecho os olhos bem devagar para não assustá-los. Qualquer ruído, zunidos de mosquito, portas que batem, um vizinho que gritasse, infeliz com sua vida de ver, poderiam fazer com que meus olhos, famintos de vida e luz, se abrissem.

Aperto-os com força e sigo, nesse lugar sem imagens, inventando bosques e castelos no lugar de garagens e gavetas; dragões e cavaleiros substituindo ônibus, trânsito, carinhas vazios; estrelas e luas cheias para espantar essa doença que está me comendo por dentro.

Por um momento, lembro-me das pílulas que o médico receitou, mas abrir os olhos, pegar água na cozinha, engolir o remédio seriam demais. Toda essa atividade estragaria meu momento de puro prazer, então deixo pra lá e recomeço a sonhar. O telefone toca, certamente é Lola atrapalhando a minha vida mais uma vez. Não vou atender! Já vem uma linda águia azul e púrpura procurar meus cabelos para fazer seu ninho. Não posso interrompê-la. Lola que espere pelo amanhã que virá. Virá? Seria tão bom se eu pudesse ficar aqui para sempre nesse mundo intocável… Acho que amanhã vou conseguir: ficar ficar ficar nesse lugar protegido do mundo. Vou sim, vou conseguir.

Durmo.

*Rosane Ramos, carioca, é professora e poeta. Tem poemas publicados em jornais de poesia, como: Poiésis, Blau, Panorama da Palavra , Poesia Viva e ainda na Revista Poesia Sempre da Biblioteca Nacional, Ano 7 número 10. Co-autora na Antologia Sete Vozes (Editora da Palavra, 2004).