A PRINCESA DESENCANTADA

Nome: Beatriz Iky Alves
Mais conhecida por: Bia
Nascimento: 20 de fevereiro - 30 anos
Signo: Peixes Nacionalidade:
Portuguesa
Profissão: Advogada
Estado Civil: Complicado, mais para solteira à procura
Mora: Nekane, sozinha
Não vive sem: Cartões de créditos, blogue, fazer listas
Como ela é: Bia é uma algarvia, energética, precipitada, sem grande controlo sobre as suas emoções, e muito atrapalhada. Sua pele é branca, daquelas que no verão ficam tipo lagosta. A estatura é média, mas vive com medo do efeito sanfona ou de acabar com o rabo em formato de braille, cheio de altos e baixos. No seu blogue, afirma de boca cheia que: 1. não ouve vozes; 2. não é insegura; 3. não tem conduta paranoica; 4. não é obsessiva compulsiva, nem sofre de ansiedade no geral. Acredita que a esperança é a última a morrer, embora às vezes possa ser a primeira a matar.

Submersa na depressão causada pelo divórcio iminente com Francesca, Beatriz Alves descobre que o seu chefe, Vítor, com quem nutre um relacionamento confuso, a enviará para trabalhar no Reino de Gastón. O paraíso fiscal é refúgio para lavagem de dinheiro de traficantes, celebridades e, pior ainda, da máfia. Temente pela própria vida e enamorada pelo príncipe Carlos Henrique, um tenista mulherengo, será a atrapalhada Bia capaz de resolver os seus problemas emocionais e financeiros sem se envergonhar à grande entre as elites de Gastón?

Título: A Princesa Desencantada
Classificação Temática: Romance Chick-lit
Status: Editoração
ISBN: -
ASIN: -
Edição: -
Editora: Trebaruna
Coordenação Editorial: -
Artista de Capa: -
Brochura: - 
- Páginas: -
- Encadernação: -
- Dimensões: - 
Formato digital: -
- Tamanho do Arquivo: - 
- Páginas: -

Domingo, 23 de Fevereiro
Carência e irritabilidade: 50%
Humor: 50%
Saldo: 595,69 libras, Visa e Mastercard quase negativos

Bia, tu tens novas mensagens de email

De: Fran francescatoura@gmail.com
Para: Bia biaikyalves@gmail.com
Enviada: segunda-feira, 01 de Julho 16:31:47

Espero que estejas bem. Tento ligar-te e nada. O telemóvel só dá desligado e os mails voltam. Já passaram 19 dias porra! Precisamos ter essa conversa. Talvez possas telefonar-me. Entendo que as coisas estejam confusas, mas temos que falar. Responde!
P.S. Estás a ser infantil! Amo-te, Francesca

De: Fran francescatoura@gmail.com
Para: Bia biaikyalves@gmail.com
Enviada: quinta-feira, 08 de Agosto 23:09:32

Tens recebido os mails? Onde está a meia-liga de renda vermelha? Levaste para Cambridge? Telefona-me!
P.S. Estás a ser infantil! Amo-te, Francesca

De: Fran francescatoura@gmail.com
Para: Bia biaikyalves@gmail.com
Enviada: domingo, 15 de Setembro 08:17:23

Vamos entrar no terceiro mês e continuas a ignorar-me. Sei que te chateio muito, mas é porque precisamos conversar. Até quando pretendes continuar com isso? Não sejas uma fufa, para lá com estas tretas. Há preconceito, mas o importante somos nós. O que aconteceu é passado, merecemos outra oportunidade.
P.S. Estás a ser infantil! Amo-te, Francesca

De: Fran francescatoura@gmail.com
Para: Bia biaikyalves@gmail.com
Enviada: sexta-feira, 11 de Outubro 17:34:09

OK! Já percebi! Não queres falar comigo, e eu entendo, juro que entendo. Sabes bem que vais voltar para o Algarve. Achas que podes fugir de mim para sempre? Só eu te posso dar o que tu realmente queres. Sabes disso tão bem como eu. Mas tudo bem, precisas de espaço, de tempo… Não te chateio mais. Viste o novo anti-rugas da Dior? Vou comprar.
P.S. Estás a ser infantil! Amo-te, Francesca

De: Fran francescatoura@gmail.com
Para: Bia biaikyalves@gmail.com
Enviada: quarta-feira, 27 de Novembro 05:52:11

Tu mudaste? Eu menti! Não quero dar um tempo, já te dei espaço demais! Fui à Cambridge, e eles disseram-me, que não moras mais naquela república de estudantes! Não me avisaste porquê? Sei que não queres falar comigo, afinal andas a ignorar os mails, mas precisavas desaparecer no Reino Unido? Já passaram cinco meses! Cinco meses sem enfrentares a realidade. Até quando vamos continuar com estas tretas? Comprei um primer da MAC da cor dos teus olhos.
P.S. Estás a ser infantil! Amo-te, Francesca

De: Fran francescatoura@gmail.com
Para: Bia biaikyalves@gmail.com
Enviada: terça-feira, 24 de Dezembro 10:19:28

É Natal, será que vamos estar juntas? Será que finalmente iremos colocar os pontos nos i's? Esta situação está cada vez mais insuportável. Tenho enviado menos mails, dar o espaço que pediste, mas é difícil. Espero que tenhas um PÉSSIMO Natal! Ah! Estou a usar as tuas tanguinhas da Victoria's Secret.
P.S. Estás a ser infantil! Amo-te, Francesca

De: Fran francescatoura@gmail.com
Para: Bia biaikyalves@gmail.com
Enviada: terça-feira, 14 de Janeiro 22:51:13

Sete meses, Bia! Sete meses! Sete meses que não vens à casa! Sete meses que me ignoras! Os teus pais não me dão o teu contacto. O Lipe esconde-se de mim. A Tasha odeia-me, e o Lucas ri na minha cara. Por mais quanto tempo vamos continuar com estas tretas infantis? Tens que voltar a ser racional para colocarmos as cartas na mesa!
P.S. Estás a ser infantil! Amo-te, Francesca

De: Fran francescatoura@gmail.com
Para: Bia biaikyalves@gmail.com
Enviada: sábado, 22 de Fevereiro 03:29:44

Estamos no segundo mês do ano e continuo sem notícias tuas. Sei que o Mestrado acaba agora. Estou a tua espera. Vais ver que desta vez dá tudo certo. Telefona a dizer em que dia chegas. Quero ir buscar-te ao aeroporto. Mal posso esperar para te dar um banho de língua sua toura.
P.S. Estás a ser infantil! Amo-te, Francesca

Tens a certeza que desejas excluir os emails seleccionados?

SIM!

Segunda-feira, 24 de Fevereiro
Carência e irritabilidade: 69%
Humor: 31%
Saldo: 583,61 libras, Visa e Mastercard quase negativos

1. Publicado por Bia, às 21h47. O BLOGUE. Santa Prada de Milão! Que demora! Se soubesse que iriam demorar tanto, juro que tinha ido lá. Tudo bem, o horário de entrega do restaurante, A Tasca, já encerrou, mas daí a precisarem de uma hora para fazerem uma entrega é falta de respeito!

Moro aqui há meses! Sou um membro da república de estudantes University Arms House e tão portuguesa como os funcionários do restaurante! Imagino o que seria se não fosse. O melhor é arrumar os presentes e esquecer o assunto.

Sinto uma sensação gelada percorrer-me o corpo enquanto ando pelo quarto. É a mesma que experimentei quando me mudei para cá. Incrível como posso ter a mesma sensação ao chegar e ao partir, em condições tão distintas. É confuso.

Poderia ser sempre controlada, não? Imagina se eu pudesse manter aquele sorriso de orelha a orelha quando os cromos dizem que vão telefonar, sem intenções de gastarem um cêntimo do saldo do telemóvel?

Mas não. Não consigo controlar o meu peso, nem a conta do banco, quanto mais o que sinto. Falando em conta bancária… acho que ultrapassei o limite dos cartões. Porém, não posso chegar ao Algarve de mãos a abanar. Estou em Cambridge, a mais de 80 quilómetros de Londres.

Viajo daqui a alguns dias para casa. Se chegar sem presentes serei chamada de forreta. Mas não fiques a pensar, que encomendo tudo para não gastar as solas. Desse mal que é a preguiça, não sofro eu.
Campainha... deve ser o jantar.

***

O quê? 33 libras? Mais um roubo! Como pode um simples jantar ser 33 libras?

  Smoked chicken with madeira sauce & foie gras cream      £5.50
Salmon fillet with olive oil     £15.00
Caramelized banana with vanilla ice cream      £6.50
St. Hallett Chardonnay, 750ml      £5.00
Delivery Service      £1.00

TOTAL      £33.00

— Tem certeza que não se enganaram a fazer as contas? – pergunto ao moço, enquanto passo e repasso os olhos pela nota fiscal.
— Eu só entrego senhora. Deseja pagar como? Dinheiro ou cartão?
— Aceita abraços? – escancaro um sorriso e os braços.
— Não…
— Hum… divida em doze vezes – digo, quando lhe entrego o Visa.
— Doze vezes só em contas a partir de cem libras…
— Isso é discriminação com os durangos, sabia?
— Desculpe, não sou eu que faço as regras – pede, cabisbaixo. – O que deseja fazer?
— Pagar!
Enquanto ele insere o cartão na maquineta rezo aos meus Santos para que não seja recusado. Sabes aquele silêncio de segundos antes de aparecer transacção aprovada? Para mim é uma eternidade. Fecho sempre os olhos…
— Aceite! – diz ele, empurra-me a encomenda bem rápido.

Só quando o tipo me some da frente é que vejo o brasileiro do quarto ao lado de speedo, com um espeto de linguiça na mão, especado, a olhar para mim como se eu tivesse acabado de trocar de sexo. Desapareço rumo ao sofá (porta trancada!) antes que me peça outra vez para lhe pendurar os bóxeres rotos no meu estendal.

Vamos é ao que interessa! Tenho o corpo todo a dar horas, não é só o estômago.

Ah... muito melhor... confesso sentirei saudades desde sofá!

Bem! Não quis aborrecer-te com as minhas agruras, em especial as financeiras, portanto se em dois ou três parágrafos reclamei demais, se me mostrei chata, não foi intencional.

Queria apenas desabafar, libertar as tensões. Tu sabes como é. Aliás, desabafar e libertar as tensões é o que aconselha o livro Os 50 Tons da Depressão, a minha bíblia de auto-ajuda.

Pelos vistos só conseguimos resolver os problemas depois de os identificarmos.

Como tal decidi escrever um diário. Um registo quotidiano que me permita depois, observar as minhas mudanças de humor, e o que me acontece de bom ou mau. É o que aqui tenho: um blogue, a minha terapia. O diálogo interior para comigo e com o mundo.

Mas não me julgues louca ou atrapalhada. Que fique bem claro que: 1. não ouço vozes; 2. não sou insegura; 3. não tenho conduta paranóica; 4. não sou obsessiva compulsiva nem sofro de ansiedade no geral.

OK! Talvez não tenha sido muito sincera com relação ao ponto dois... Às vezes sou um pouco insegura, mas vá, só um bocadinho, nada que abale a minha autoconfiança. Em relação aos pontos três e quatro, não vale a pena falar sobre isso.

Recordo-me de quando tinha oito anos e passava horas em frente ao espelho para ver as mamas crescerem. Até que isso aconteceu, mas somente alguns anos depois, e nem vi. Nossa! São tantos! Reconheço que tenho certa tendência a comportamentos estranhos. E sei que, a esta altura, deves estar a perguntar: quem é esta transtornada que quer pagar contas com abraços? Digamos que as lágrimas secaram!

Chamo-me Beatriz, tenho 32 anos, sou solteira à procura, ou com sorte, muita sorte, futuramente comprometida. Afirmam os linguarudos-bocudos que tenho um cérebro do tamanho de uma ervilha estufada. É que, ainda por cima, depois de estufada a ervilha diminui. Um rol de calúnias é o que te digo. Em relação ao meu cérebro, não à ervilha.

Tudo bem, não sou nenhum génio. E depois? Sou normal. Algum problema nisso? Consigo ser tão sofisticada e adulta como qualquer pessoa.

Para que saibas como sou, tenho pele mesmo branca, daquelas que no Verão ficam tipo lagosta. Minha estatura é média, mas vivo com medo do efeito sanfona ou de acabar com o rabo em formato de braille, cheio de altos e baixos. O meu cabelo é castanho-escuro comprido com fios cor de chocolate. Os olhos são castanhos como tanta gente em Portugal.

Francesca diz que sou muito bonita, mas confesso que nem sempre foi assim. Logo ao nascer caí na excepção. Fui presenteada com: 1. dois dentes afastados que lembravam um túnel; 2. uma pinta em cima do lábio, que mais parecia uma carraça; 3. um pouco de estrabismo. Não que alguma vez tenha tido que virar a cabeça estilo exorcista para olhar as pessoas, mas aqui entre nós? Estava longe de ser normal. O que vale é que também não havia muito para ver naqueles tempos. Isso viria depois.

Acho que nem é preciso dizer, que tive uma adolescência miserável. Os rapazes da escola Laura Ayres em Quarteira (diz-se “em” e não “na” Quarteira!) não passavam de uns sádicos! Eu era a quatro-olhos, a vespa vesga e a boca do inferno. Entre outras coisas.

Depois de passar anos a ser buli pelos meus colegas, ao terminar o secundário, os meus pais num ataque de generosidade, predispuseram-se a pagar a amputação da carraça, e uma correcção ao globo ocular. Transformei-me numa jovem normal, que hoje em dia, com um pouco de argamassa, que alterna entre o laranja radioactivo e o branco do Gasparzinho, até consigo ficar bem sensual.

Também não vivo obcecada por relacionamentos em potencial. Para além do mais uma boa parte dos homens por quem me interessei acabaram por desaparecer ou trocar-me por: 1. versão feminina do The Rock, aquelas todas grossas; 2. girafa loira; 3. ninfomaníaca.

Ainda assim, acredito na minha alma gémea. Só pode andar por aí a minha procura! Até porque, a esperança é a última a morrer embora eu saiba bem, que também pode ser a primeira a matar...

Profissionalmente não sei se sou bem-sucedida ou não. Completei há um mês o Mestrado em Direito das Relações Internacionais, no Clare College, de Cambridge. É o meu novo começo. Embora ainda não tenha tomado posse, fui efectivada pelo escritório Bettencourt & Associados como advogada júnior na filial de Faro.

O emprego? Foi o meu tio, um juiz de renome amigo dos sócios, que mo arranjou. Mas não é por falta de competência minha, hã? Aliás, bastou um dos sócios, o Shay Bettencourt olhar para mim, para dizer logo que eu tinha todas as qualificações necessárias.

A coisa não ficou por ali. Fui submetida a um duro processo de avaliação. O B&A é um escritório brasileiro com filiais ao redor do mundo, que prima pela qualidade e pelo profissionalismo. Se até aqui tenho sido uma pita mimada ao sustento dos papás... Esse tempo acabou. Deseja-me sorte!

Dito isto, podes ver não venho de nenhum lar destruído ou de uma família de traficantes de piripiris. Ainda que, durante uns meses, o meu pai tenha sofrido agudamente da Síndrome de Redução Genital.

O homem jurava a pés juntos, que a sua enguia de bolso estava a encolher. Consequência de ter sido preso no 25 de Abril enquanto participava numa manifestação contra o Salazar. O velho acabou enjaulado com gajos com enguias de bolso maiores do que a dele. Isso deu-lhe cabo da cabeça.

De início andava constantemente de mãos nos bolsos, para ter a certeza, que aquilo não diminuía. Com os anos a coisa tem-se vindo a agravar. Já andou com réguas dentro das calças, para fazer medições sempre que ia à casa de banho. Com meias enfiadas no material para que este não encolhesse com o frio.

Agora anda mais calmo, todavia tem sempre qualquer coisa incorporada nas cuecas para conseguir sentir-se mais à vontade. Tirando esse detalhe, ele é uma pessoa normal, excepto quando abre a boca para falar. Meu pai é algarviense de raiz. Não importa quantas viagens faça ao exterior, ou com quem conviva.

Na sua opinião o Algarve é o lugar mais impertante do mundo, demódes, que deve ser honrado com o palavrar tradicional. De acordo com ele, esse é o único jête de manter viva a cultura da nossa região, visto que a maior fonte de renda do Algarve é precisamente com o turismo. E por favor, ai de nós se tentarmos corrigir o homem! Ele fica logo todo marafade e vai para a nossa Herdade em Monchique.

Com relação a minha mãe, bem… nem sei por onde começar. Dona Stela é brasileira, e assim como o meu pai tem problemas sérios com a linguagem. Ela não consegue perder o sotaque. Não me admira, porque passa mais tempo na pátria a fazer cirurgias e tratamentos estéticos do que em Portugal. A coitada não aceita a velhice e tem mais silicone que uma equipa de futebol feita de clones da Pamela Anderson.

Mas vá lá, independentemente das fobias de um e de outro, os velhos têm um casamento feliz. Moram numa excelente vivenda no Vale do Lobo em Almancil. Uma coisa aprecio neles. Mesmo com a sua considerável fortuna, nunca fizeram questão de pertencer à alta sociedade, até porque com aquele falar do meu pai seriam judiados pelos média.

Aqui entre nós, eu não ache que ele se importe. E a minha mãe contanto que pareça uma menina de vinte nas fotografias, o resto é resto.

Sobre o dinheiro da família, este veio do lado do meu avô paterno, que era produtor e exportador de vinhos, porém a fortuna tem sido dilapidada a bom ritmo de geração em geração. Claro que, quando chegar a minha vez, ou já está tudo teso ou pouco falta para lá chegarmos. Embora eu tenha a esperança, que o meu cunhado consiga impedir isso, visto que é ele que se encontra à frente da empresa.

Voltando a mim… apesar da confusão actual com a Francesca, e acredita que os problemas são muitos, não sou o protótipo da filha rebelde. Isso é com a minha irmã mais velha, Natasha das Mãozinhas.

Sempre fui mais para a calada e obediente. Mentiras apenas as inocentes. Álcool só até entaramelar a língua. E ainda que tenha tido o meu ano louco adolescente, não fiquei com quaisquer sequelas, como vês sou híper-super-normalíssima.

Sei que depois de tudo isto, te custe a crer, que me transformei numa perturbada de primeira linha. Eu própria não sei quando isso aconteceu e tornei-me tão alterada. Quero dizer, foi em Junho do ano passado, que a Francesca fez a minha vida desmoronar, mas acho melhor guardar isso para outra altura. Agora o melhor a fazer é comer e terminar de fazer as malas.

Sexta-feira, 28 de Fevereiro
Carência e irritabilidade: 80%
Humor: 20%
Saldo: 502,73 libras, Visa e Mastercard negativos

2. Publicado por Bia, às 15h12. O PURGATÓRIO. Quando penso que as coisas não podem piorar, a Lei de Murphy entra em acção para me lembrar, que sou apenas humana e zás, atira-me de volta para a escuridão. Hoje foi um dos piores dias da minha vida.

Acordei com uma chamada do B&A, a dizer que tinha uma reunião ao meio-dia na filial da Upper Bank Street. Fiquei logo ali com dores de barriga, já para não falar dos enjoos que tenho tido.

Sempre desconfiei daquela comida da entrega de o A Tasca. Muito carcanhol para pouca qualidade, mas agora tenho que me aguentar à bomboca.

Trabalhei na Coleman Street até a semana passada, altura em que me confirmaram, que estava efectiva em Faro. Tinha consciência de que uma convocação de última hora da Upper Bank apenas poderia significar uma coisa: despedimento.

Nunca vi alguém regressar de lá aos berros de felicidade porque recebera uma promoção. Não, quem vai lá é mesmo para levar o proverbial chuto nas nádegas. E as minhas precisam neste momento é de carinho, não de violência no local de trabalho.

Enfim, após uma viagem que envolveu troca de autocarro e duas paragens; cabeça a latejar, três idas ao WC, tudo debaixo do costumeiro céu cinzento, sem brilho e ameaçador, cheguei à Londres. O calor era de tal forma sufocante, que as pessoas andavam na rua a olhar para todos os lados, como se o apocalipse tivesse à espreita de as apanhar distraídas.

Acho que os brits não percebem esse conceito de calor... Para eles há apenas um mau tempo generalizado com frio, chuva, má disposição. Também coisas pequenas e bicudas a caírem do céu para lhes rebentarem os guarda-chuvas. Tanta tecnologia, para o clima ainda lhes ser um mistério. Juro que não percebo esta gente...

Semiviva entrei no B&A.

Nem te conto que a angústia tomou conta de mim. Não podia aceitar, que me iriam mandar embora. Os meus sonhos de uma carreira gloriosa estavam a acabar mesmo ali, antes de terem começado. Uma falta de chá incrível. Ainda mais grave quando isto se passa na Inglaterra.

Jamais iria aparecer na televisão! Eu, uma mulher influente e com opiniões que os outros fariam bem em ouvir. Adeus, casa nos Hamptons. Já para não falar dessa mancha no meu currículo: não ficar efectivada na minha primeira proposta de trabalho a sério.

Só queria chorar. O nó da garganta parecia que tinha meia dúzia de macacos em pânico a atropelarem-se uns aos outros nas suas descidas e subidas constantes. Quando o elevador parou, mal pude acreditar!

— Olha se não é o Cup Cake mais gostoso que eu já provei − falou Vítor, risonho.
— Não acredito que disseste isso em voz alta – resmunguei, a forçar um sorriso para o grupo de homens com ar oriental. Para piorar: todos ficaram a olhar para mim, como se fosse com eles, que eu estivesse a falar. Ou estariam a olhar para o meu peito? Prefiro acreditar que era para mim…
— Não se preocupe que japoneses de Tóquio não costumam ter português como língua materna – retrucou, ainda a sorrir.
— Tóquio só pode ter japoneses. Querias o quê? Esquimós? – retorqui, chateada. – E o que é que estás para aqui a fazer? Não deverias estar a defender gatunos em Nevada?
— Nekane. Sou da filial de Nekane. Vim a trabalho e você?
— Tenho reunião no décimo-segundo. E diz-me que não fizeste isto!
— Estou com saudade. Você desapareceu sua perturbada − sussurrou no meu ouvido, a apalpar-me o rabo. As minhas vistas quase devem ter saltado das órbitas, porque os japoneses apesar dos olhinhos, viram muito bem aquilo. Ai se viram!

Fechei os olhos e tentei ficar calma para não causar a barafunda que me apetecia. Escândalo em cima de despedimento também é demais. O dia ainda mal tinha começado e já estava tudo de pantanas. O pão meu de cada dia... Mal o elevador chegou ao décimo andar, saí sem proferir palavra.

Não podia acreditar.

Já se tinham passado quatro meses, e há dois que eu não pensava nele. Não era minimamente justo o Vítor aparecer assim. E que raios ele queria com aquele jogo todo de cintura, sussurros no ouvido e exageros de mão? Nem sabe quão perto esteve de ficar com as minhas digitais espalhadas pela cara. E ainda dizem que não tenho autocontrolo. Naquele elevador eu fui a rainha do autocontrolo. Aprende, que eu não duro sempre.

Apressada, dirigi-me para os fundos e subi as escadas. Cheguei ao décimo-segundo andar completamente esbaforida. Acho que custa mais subir do décimo para o décimo segundo, do que do primeiro para o terceiro andar.

Deve ser da altura... Ou então de eu encarar qualquer ginásio como um local de culto do mafarrico, com apenas três doutrinas: 1. ter coloração de pele o mais próximo possível de uma cenoura; 2. aprender inglês: Camon man! Go! Be strong! Basicamente o vocabulário acaba aí; 3. desfrutar de um corpo no formato de cone de gelado: fino em baixo, largo em cima.

Não serve para mim! Sou a favor de banhos de imersão, muita Kundaliní e Yoga.

Parei, ajeitei o casaco, ergui a cabeça e empurrei a porta pesada que dava acesso para as salas do B&A. Aquilo estava um gelo. Com excepção de uma senhora mais velha, que entrara na casa de banho, não havia uma única alma penada por ali. Ou pelo menos era o que eu pensava até ser arrastada pelo Vítor para dentro de um depósito com mesas empilhadas.

— O que foi? – perguntei, na defensiva.
— Estou com saudade, Cup Cake.
— É melhor tirares o cavalinho da chuva! − esbracejei, a tentar soltar-me. Ele encostou-me à parede. Ficámos tão juntos, que dava para sentir o seu hálito mentolado no rosto, à mistura com um aroma másculo, que nem sei se brotava da sua pele, se do fato Armani de lã penteada a roçar nas minhas pernas. A minha respiração acelerou, e não resisti, deixei que me beijasse. Um beijo urgente que quase me derreteu.

Sou uma fraca, eu sei. Mas soube-me pela vida, que queres?

— Pára Vítor! – disse, a empurrá-lo. Isto com os homens há que não lhes dar confiança demais. Primeiro um beijo e logo a seguir já têm as mãos por todos os lados menos apropriados.
— Vou te ver mais tarde? Agora tenho que trabalhar.
— Tchau seu mimado! – gritei.

Ao sair da sala fiquei mesmo decepcionada comigo.

Uma das minhas resoluções de ano novo foi não voltar a ter contacto com ele, e, no entanto, ali estava eu, em chamas após um beijo. De pernas frouxas, segui para o WC. Retocar a maquilhagem sempre antes da reunião. Em especial quando se anda aos chochos com alguém.

Toda ansiedade voltou de trambolhão! Refiz a pintura e analisei o resultado. Estava bonita e superprofissional: cores leves, cabelo solto e tailleur bege elegante DKNY com frente plissada.

A cinco minutos da hora marcada, corri para divisão, que me fora indicada no telefonema, uma antessala, outro espaço frio com aroma floral, decorado em tons negrumes.

Atrás de uma mesa escura, uma secretária mesolítica cheia de rugas, mas muito simpática. Encaminhou-me para uma sala luxuosa. Serviu-me água e pediu-me para aguardar. Aquela era provavelmente a sala mais grandiosa de todas até agora.

O nervosismo atacou.

Ia para o olho da rua, tinha certeza. Nunca seria chamada para opinar sobre casos de grande repercussão nos média. Adeus, bónus milionário de final de ano e Louboutins de 3200 libras. Teria que recomeçar num escritório medíocre, de escotilha virada para a cadeia. O meu estômago deu um nó. Fiquei enjoada.

— Estás a seguir-me? – perguntei, mal ele entrou na sala, inundando-a com o seu perfume.
— Eu é que pergunto isso. E isso é papel higiénico no seu sapato?
Olhei para o chão e Santa Prada de Milão! Havia quase que um rolo preso à sola. Vergonha total!
— Não é da tua conta! — falei, humilhada, a arrancar o papel. Depois de o colocar no lixo: — Eu tenho uma reunião aqui. Tens que te ir embora antes que alguém chegue – empurrei-o pelas costas.
— Calma, Cup Cake. Você tem certeza que a sua reunião é aqui?
— Tenho. Por isso é melhor pores-te a andar antes que eu chame a segurança.
— Hã... você não quer fazer isso.
— Quero e vou! Nem que seja para me levarem e manterem-me afastada das tuas mãozinhas habilidosas. Seu mãos de polvo!
— Você não vai chamar segurança nenhuma.
— Porquê? Por acaso és o Batman e vais deslizar na tua capa? Já sei! Vais juntar toda a gente numa sala e fazer distribuição de melos – disse, a deitar-lhe a língua de fora.
— Você é muito perturbada – redarguiu, risonho.

Fiquei sem saber se estava a falar a sério ou se era apenas mais provocação barata. Depois, abriu um sorriso, inspirou fundo e passou os olhos no papel que trazia:

— Acho que a sua reunião é comigo.
— Usaste drogas vencidas? Já te disse que isso faz mal! E porque é que eu teria uma reunião com um advogado de quinta categoria?
— Você não faz ideia da minha posição na empresa, pois não?
— Não, porquê? Eu devia?
— Sim, você de-ve-ria, Beatriz.
— Desde quando sabes o meu nome?

Já cheia de cagaço, corri para a porta, mas ele segurou-me no braço.

— Dá para você se acalmar?
— Não!

Tentei libertar-me, mas ele não me soltou. Olhou-me sério por um momento. Depois a sua face ficou dura. Nem um músculo se movia. A sua expressão era uma tela em branco. Para começar a falar, ele colocou o indicador na minha boca e proferiu com falsa solenidade:

— Cup Cake… acho que sou seu futuro chefe.
— Nos teus sonhos, não é? O meu chefe chama-se Shay Bettencourt.
— Sim, e eu sou Vítor Bettencourt. O Ivan, o Aike e o Shay são meus irmãos. Somos os quatro sócios-proprietários do B&A.
— Querias tu! – gargalhei com nervosismo. A minha vida estava a andar para trás. Tipo, até a pré-história.

Impaciente, tirou a carteira do casaco e entregou-me a carta de condução.

Foi como se tivessem implodido um prédio comigo dentro. O coração batia-me ferozmente e fiquei com falta de ar. Onde, quando, como? Nas fotografias que vira dele nas revistas, ele usava bigode, aparelho nos dentes, cabelo raspado, e era sempre mencionado como Bettencourt Júnior, nunca, friso, nunca como Vítor!

— Desculpe, Cup Cake – pediu, ao acariciar o meu rosto. Afastei-me bruscamente.

Ele estava a enganar-me. Eu só queria sair dali. Que tola! E acima de tudo: burra! Devia ter investigado. Pelo São Louboutin! Quando conheci o Vítor, ele estava hospedado no Four Seasons. Porque é que pensei que era um advogado insignificante?

— Você está bem? − quis saber, a cortar o silêncio entre nós.
— Claro que não! Mentiste! Pensei que trabalhavas para o B&A, mas afinal és o dono! DONO! Devias ter dito isso há bocado!
— Espera aí! Você acha que eu sabia quem você era? Que tinha ideia que a Cup Cake e a Beatriz do currículo eram a mesma pessoa? Nossos currículos vêm sem fotos para não influenciar nas escolhas, é política do escritório. Você também não fazia a menor ideia de quem eu era.
— Tu és o Ordinário que me desvirtuou! Tarado!
— Fala a virgem! Se alguém aqui tem obrigação de saber, quem é quem, é você! Somos apenas quatro sócios-proprietários. Você não espera, que eu saiba o nome de todas as advogadas?!
— Não, só daquelas com quem trocas linguados.
— Ei! Não sou de ficar pegando qualquer uma.
— OK! Já percebi, vou para o olho da rua, é isso?
— Claro que não sua perturbada. A reunião é para dizer que você não vai mais para Faro, e sim para Nekane, repito: Nekane, não Nevada.
— Nekane?
— Sim, vamos trabalhar juntos se você aceitar. Há mais chances de promoção em Nekane. Aliás, em menos de dois anos você seria advogada-plena.
— Jamais! Prefiro ficar sem casa nos Hamptons! – recusei e encostei-me à secretária.
— O quê?
— Nada! Vou para casa. Chega destes joguinhos.
— Deus do céu! Quanta perturbação. Você já trabalha para mim.
— Ah é? Eu aceitei por acaso? Não te respeito. Não é possível respeitar um ordinário como tu. E depois − engoli em seco −, também não me respeitas. Portanto... vou fazer as minhas contas e sair.
— Pára com isso. Eu respeito todas as minhas funcionárias, principalmente você.
— Pois! Claro que sim! Esperas que eu acredite nisso? A esfregares-te em mim como ainda há pouco? – argui, enquanto franzia o cenho. Ele ficou com cara de espanto. Eu disfarcei: − Não que me importe. Beija quem quiseres desde que não te afiambres a mim.
— Nossa Senhora! É muita agitação numa só pessoa, mas eu me acostumo.
— NÃO VOU TRABALHAR CONTIGO! – gritei.

Vitor, ao invés de recuar cortou-me a fuga prendendo-me contra a mesa. Pela segunda vez ficámos quase colados um ao outro. A minha cabeça a querer ir para um lado e o corpo a descambar no mesmo. O que é que eu tenho de errado? Porque é que ele desperta estas coisas em mim? Só pode ser macumba! Enfeitiçou-me nalgum quintal brasileiro cheio de galinhas pretas, carecas, de três pernas e vesgas! Não tenho dúvida quanto a isso.

— Você não tem saudades minhas? – perguntou com voz fraca. Dedilhou a minha perna suavemente.
Preguei-lhe uma chapada na mão.
— Ordinário!
— Que tal irmos embora fazer aquilo que você está me devendo? Depois resolvemos a efetivação.
— Não vou trabalhar contigo − reafirmei com a respiração pesada. Tive um déjà vu com a proximidade. Quando me segurou no queixo, para me beijar todo o meu desejo explodiu. Estava confirmado. Era macumba, e da forte!
— Vou almoçar no Ledbury vens comigo? – anunciou uma voz feminina.
Fiquei paralisada. Vítor colocou-se a minha frente.
— Não sabia que estavas acompanhado − disse uma girafa loira, daquelas que me deixam a morrer de inveja: alta, longas pernas bronzeadas, cabelos dourados esvoaçantes e olhos azuis.
— Estou em reunião. Você precisa de mim?
— Não… vim chamar-te para almoçar, mas já vi que estás ocupado – frisou com um sorriso cúmplice.

Envergonhada olhei para o chão.

— Vou comer mais tarde.
— Entendo.

Mal ela saiu, Vitor retomou o ataque. Empurrei-o com firmeza, apesar de toda eu tremer.

— O que foi?
— Vou embora.
— Ah! Pára Cup Cake. Apesar da cara de cobra, a Mariana é inofensiva.
— Inofensiva? Com apelido de cobra? Ela vai dar com a língua nos dentes! Toda a gente vai se pôr a coscuvilhar, que só fiquei colocada em Nekane porque andámos enrolados.
— Então você vai para lá?
— Vais usar cinto de castidade?
— Só se for você a colocar em mim… – sorriu, maldoso.
— Estou a falar sério, Vítor! Não tenho outra opção, pois não?
— Demissão? – mordeu o lábio e continuou: – Os advogados vão para onde são enviados. Quando não querem são demitidos. Mas como a gente tem uma história − fez uma pausa e desolado passou a mão no rosto –, você pode ir para Faro, não acho bom para a sua carreira, mas se é o que você quer...
— Se eu for para Nekane, prometes que não vais andar a fazer destas? Tipo a tentares agarrar-me quando não quero?
— Claro que não! Mas qual o problema de a gente se ver?
— Fica mal para mim! Santa Prada de Milão! Mais uns minutos e a loira tinha visto o vai e vem desse rabo cabeludo!
— Minha bunda não é peluda! E você está me autorizando a avançar, é isso?
— Olha não me confundas, OK? Nunca vi o teu rabo, nem vou ver! O que quero dizer é: íamos sendo apanhados e toda a gente ia ficar a saber.
— A Mariana é ex-mulher do Shay e sócia do escritório. Não está em posição de fazer fofoca, mas se você quiser eu falo com ela.
— Faz isso! E já agora aproveita e esfrega-te também! Antes ela que eu!
— Deus do céu! Você está com ciúmes da minha ex-cunhada?
— Ciúmes? Eu? Está visto que não me conheces. Roça-te com quem quiseres. Desde que não seja comigo, nem quero saber − menti e continuei: – Vou embora. Tenho que mudar as etiquetas das malas e comprar uma passagem para Nekane.
— O escritório vai cuidar do bilhete. Você já fez as malas… Que tal a gente ir para o meu hotel? − sugeriu sedutor, os olhos verdes mais brilhantes do que nunca. Resisti valorosamente.
— Não volta a acontecer, Ordinário! – ameacei, ao sair da sala. Posso não ter entradas triunfais, mas algumas das minhas saídas são em estilo.

Vítor não veio atrás, felizmente.

Porquanto estava com vontade de bater-lhe e sem grandes inibições ou desejo de conter-me. Apesar de ele apregoar, que tenho mais oportunidades de carreira em Nekane, a ideia de fixar residência num país, que só visitei uma vez não me agradou nada. Muito menos a de trabalharmos juntos.

Não que ande com vontade de regressar ao Algarve. São Louboutin sabe bem como adio essa viagem por causa da Francesca. Ainda assim, em tempo algum pensei em ir morar para outro lado.

Com sentimentos contrários, saí do edifício e rumei à estação.

Estava confusa, nauseada e acima de tudo, indecisa. Liguei ao Lipe.

— Estás aonde?
— Em casa, why?
— Quinta do Lago ou Nekane?
— Nem good morning, nem nada? Cadê o love?
— Responde, por favor.
— Algarve gata, vou para Nekane sábado final do day, porquê?
— Acreditas que me transferiram para lá?
— Really? Que maneiro!
— Não tem nada de bom ir morar para um lugar que mal conheço.
— Ué você também não quer return.
— Quem disse? Claro que quero! Só que, não agora. Preciso de mais tempo longe da Francesca.
— Sei... Se é assim porque não recusou?
— E argumentar o quê? Que não posso ir para Nekane porque tenho mulher e filhas no Algarve?
— Marido e filhos, honey, a expressão é marido e filhos.
— Seja lá o que for, o que é que isso importa agora? Vou para Nekane trabalhar para o Ordinário de Nevada!
— Wait! Onde que o dirty entra nisso?
— Ele chama-se Vítor. É o quarto sócio-proprietário do escritório. O único que eu não conhecia pessoalmente!
— Dear God! E agora chuchu?
— Estou feita ao bife! Vou para Gastón.
— Bom, eles podiam ter-te mandado para onde Judas lost as boots.
— Não quero ir para Nekane. Para isso mais vale o Algarve.
— Deixa de história. Os únicos planos, que você tinha eram para ficar bem far away daqui. Pelo menos não precisa mais usar a desculpa, que um mouse roeu seus documentos.
— Olha, não vou pôr-me a discutir contigo.
— Tudo bem. I have to go. Estou desde madrugada orientando a solução de problem no software de um client. Dá uma olhada no email. Vou-te reencaminhar uma matéria sobre Gastón.
— Sem spam!
— Chill gata... chill... você anda muito stressed... faz como eu, vai ao Spa que isso passa – disse, antes de desligar.

Fiquei ainda pior. Tinha esperança, que ele arranjasse uma solução milagrosa, para eu poder regressar ao escritório, e dizer ao ordinário do Vítor que não podia ir para Nekane. Mas o Lipe falhou-me. Coninhas!

Fiz o caminho de regresso, inchada de raiva. E agora, estou a comer cup cakes da Bake-a-boo por ironia do destino!

O problema é que o Lipe tem razão. Eles podiam ter-me mandado para algum lugar diabólico com dragões-de-komodo. O B&A tem escritórios em países bizarríssimos, então por esse lado Gastón não é de todo o fim do mundo, mas... pelo amor de Deus! Porquê sempre tanta confusão com a minha vida?

Não! Não posso trabalhar para o Ordinário! O nosso começo foi péssimo, e não, não te vou contar como fiquei íntima do meu futuro chefe. Em minha defesa, eu nem sequer sabia a sua identidade. Estou humilhada demais para isso. Apenas te digo que, momentos extraordinários foram vividos por mim.

Hum, vou ver se o email chegou.

Bia, tu tens novas mensagens de email

De: Lipe filipeleman@gmail.com; CNG noticias@reinodegaston.com
Para: FW: Bia biaikyalves@gmail.com
Enviada: sexta-feira, 28 de Fevereiro 14:23:55

Olá, Filipe Leman:

A Central de Notícias de Gastón não para de repetir: você é um cliente muito importante. Lamentamos informar que o período de teste da edição virtual acaba de expirar. Como queremos que continue a desfrutar da nossa publicação, temos uma oferta para si.

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Matéria de Ouro do mês: O Reino de Gastón

*Reino de Gastón*
Lema: A sorte ajuda os fortes
Hino nacional: Ó Deus, Abençoa Gastón

Ó Deus, abençoa Gastón,
Terra de mares e montanhas.
Honra assim a sua história
E os que buscam a sua glória.
Dispersa os seus inimigos
E torna forte esta nação,
Que conheço como terra mãe,
Que corre nas minhas veias,
Que mora no meu coração.
Ó Deus, abençoa Gastón.

Subdivisões: 8 condados e 1 arquipélago
1. Niceto 2. Antiqua 3. Pampulha 4. Solano 5. Florián 6. Santa Inês 7. Lisardo 8. Nekane 9. Arquipélago de Ventura: Ilhas de Groselha, Santa Cruz, Horizonte, Solar

Gentílico: gastonês, gastonesa
Língua oficial: português gastonês (PT-RG)
Área total: 83.582 quilómetros quadrados
Capital: Nekane
População total: 11 554 298 habitantes
Produto Interno Bruto total: US$ 490,509 mil milhões
Regime político: monarquia parlamentarista
Chefe de Estado: Vossa Majestade Dénis I
Chefe de Governo: Sua Excelência Cristóvão I
Moeda: Reinos (Ř) (RGR)
Geografia: Gastón fica na Europa. A este tem como fronteiras terrestres Portugal e a Espanha. A norte, sul, este e oeste é banhado pelo Oceano Atlântico
Clima: temperado marítimo, com Invernos frios com precipitações irregulares; Verões frescos e húmidos
Principais cidades: Nekane, Santa Inês, Antiqua e Niceto
Página do Governo: www.reinodegaston.com

Da sua história sabe-se:
80 a. C.: ocorre a passagem dos cartagineses, seguindo-se a dominação romana.
300: controlo visigótico após a queda do Império Romano do Ocidente.
930: Enrico Franco Gastón, filho ilegítimo de Carlos Magno, subjuga a área. É numa viagem-campanha entre Aragão e Castela, que este acaba sendo derrotado pelos mouros. É deste período, em que a região esteve sob o domínio de Enrico Gastón que provém o nome do Reino.
1300: durante o reinado de D. Afonso XI, rei da Espanha, Gastón é acoplado ao território Espanhol.
1492: chegada à América pelos Espanhóis. Em simultâneo com a busca do Eldorado advém a exploração sistemática de metais preciosos em Gastón. É com a exploração dos metais preciosos que Gastón se desenvolve.
1706: a meio da Guerra da Sucessão Espanhola, e subsequente redução do poderio militar espanhol, as tropas portuguesas, comandadas pelo general-coronel Manuel Vitorino realizam uma triunfante invasão marítima e terrestre à Gastón. Durante os 100 anos seguintes Portugal domina a região.
1807: Jean-Andoche Junot invade o território português, iniciando a Guerra Peninsular. A família real gastonesa, que era controlada por Portugal, passa a ser controlada pelo francês, que recebe o título de Primeiro Duque de Abrantes.
1812: as tropas francesas abandonam Portugal, em virtude das vitórias inglesas.
1820: instauração do regime constitucional-liberal em Portugal. Gastón regressa à alçada portuguesa.
1927: ocorre a Rebelião militar, em Lisboa e no Porto. Aproveitando-se disto, Florián, general do exército de Gastón e filho bastardo de Dom Manuel II de Portugal, inicia uma triunfal campanha contra Portugal. Gastón adquire a independência e Florián é proclamado rei. No mesmo ano, é elaborada a Constituição do Reino de Gastón.
1943: em plena Segunda Guerra Mundial, Florián morre com cólera, legando o trono a sua única filha, Floréense de Florián. A herdeira fica conhecida como Princesa Floréense, tem apenas 21 anos.
1947: reconstrução de Gastón como parte do Plano Marshall.
1984: abdicação da rainha... Todos os seus direitos e pretensões ao trono transitam para seu único filho Afonso I.
1986: morte da rainha Floréense.
2013: inicia-se o reinado de Dénis I, coroado após a abdicação do pai Afonso I.

Esta oferta é apenas uma das formas que o grupo Central de Notícias de Gastón encontrou para agradecer a sua preferência

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Frederico Rebull, Director de Marketing
CNG – Algo de Novo no Ar Todos os Dias

SÉRIO? Ninguém em plena consciência aceitaria mudar para um país desses com moeda, cujo símbolo tem um acento circunflexo invertido em cima. Porém, comigo a crise vais mais fundo. Sem contar que sou obrigada. Mas vá, talvez Gastón não seja tão mau assim. Embora, com 1 reino a valer 1,20 euros atingir a ruína financeira, não será difícil para mim.

Até tive inúmeras oportunidades de ir à Nekane há uns anos, quando a Leman Software, empresa do Lipe abriu uma filial lá. Mas só fui uma vez em Outubro do ano passado, fiquei dois dias com ele, não vi nada e desgracei-me toda. Falarei sobre isto mais adiante.

De qualquer modo, mal saí de lá fui direitinha para Cambridge, para a minha vida bem mais pacata e supercontrolada. Não faço a menor ideia, que tipo de cidade é Nekane.

Já agora, Filipe ou Lipe como prefere ser chamado, é o meu melhor amigo, dividindo funções com a minha irmã, se bem, que eu e ela não somos propriamente unha e carne. Ele é brasileiro e tem 43 anos. É magro e de olhar aliciante. Formou-se em informática e tem vindo a aumentar o seu património com a criação de software especializado para empresas.

É filho de pais ricos e requintados: o que lhe adiciona uns zeros à conta bancária. Efectivamente nenhum dos Leman é estranho às capas das revistas do jet-set.

O nome dele aparece amiúde nas colunas sociais dos grandes periódicos: já apareceu na capa da People, no TMZ e no site gastonês Celebridade Fofoca! Lipe, não se importa nada com essa publicidade extra, já que não só melhora a sua vida na empresa como a sexual.

Lipe é daqueles que se encontra sempre disposto a ajudar qualquer aspirante a modelo a subir na carreira, desde que primeiro visite umas vezes a sua cama. Como passa metade do seu tempo a viajar pela Europa e Estados Unidos ganhou o péssimo hábito de misturar o português com o inglês.

É um homem extremamente cobiçado. Suponho que muitas mulheres vejam ali um casamento fabuloso. Até porque ele é bem-parecido, com um ar sedutor natural, que só tem ficado mais perigoso com os anos.

O que elas não sabem é que o Lipe não é só polivalente em Informática...

Não encontrou a porta de saída do armário e nem precisa. Da mesma forma, que não assume nenhuma relação oficial com nenhuma das suas parceiras, também é igualmente displicente com as suas necessidades homossexuais. Dá umas escapadelas quando lhe apetece e pronto! Mulher perto de Lipe é receita para drama e confusão. Sair com ele é sempre um filme. Na realidade acabou de ser a sensação do Celebridade Fofoca!

Celebridade Fofoca
Em destaque esta semana

FILIPE LEMAN, FUNDADOR, PRESIDENTE E CEO DA LEMAN SOFTWARE, ANDA NUMA MÁ FASE…

Além de estar sempre metido em diversas rodinhas de blá-blá-blá sobre as suas reconquistas sexuais, o empresário teve a brilhante ideia de aceitar uma conversa com a revista Playboy Gastón.

Falou de drogas, Viagra, e até, sobre o tal envolvimento com a sua amiga travesti.

“O que vocês querem know? Estou aqui, ask me! Sou um open book!”

“OH YES! Of course que já experimentei drugs! Quem never? LSD! O problema é que eu achei que era um rockstar e me joguei na audience para ser carregado pela multidão… Na realidade eu jumped mesmo do meu sofá e aterrissei de face no floor! It hurted tanto!”

E tem mais: ele disse que tomou a baga azul e não gostou. “Não foi legal. Meu nose bled e a rigidez não compensate. Estava alone! A model furou comigo, você believe?”

Mas a melhor resposta está directamente ligada à desventura para lá de comentada do milionário com a moçoila XY, com quem fora flagrado, ao entrar no hotel Hilton Nekane na semana passada. A loira de olhos verdes era efectivamente um travesti.

“Foi um erro, people! Como que eu ia know, que aquela hot woman calçava mais que eu? Que era um ovo Kinder e trazia surprise? A big, big mistake! Não consumado! Escreve aí em big letters: NOT CONSUMMATED!”

Mas será que o empresário, modelengo, ainda não aprendeu que, quando tudo vai mal, quando a água está a bater no rabo, é melhor respirar fundo, prender a respiração e ficar quieto, para não se afogar de vez?

Leia a íntegra da reportagem em
www.reinodegaston.com/pt/celebridade-fofoca/
Celebridade Fofoca – O Ópio da Sociedade

Vês? Bem-vinda, ao meu mundo.

Conheci Lipe através da Tasha, com quem namorou. Isto sempre me baralhou já que ela é uma chata, e ele completamente o oposto, um iconoclasta sexual...

Sinceramente não sei como é que o Lucas atura a Tasha vai para 12 anos. Para mais com as duas melgas, que têm por filhos. Só de pensar neles já fico com os cabelos em pé, ainda assim adoro-os, claro.

Tasha das Mãos Leves anda sempre vestida para matar by Prada, e qualquer grife caríssima, que possas imaginar. Apesar de sermos irmãs, de nada se parece comigo. Ela é loira, linda e maravilhosa! Sim tipo a girafa da Mariana, só que muito mais gira.

Passei metade da minha vida a morrer de inveja, mas apenas no quesito de beleza, porque aqui entre nós, a Tasha terminou o secundário com uma média vergonhosa, no entanto, com umas doações dos nossos pais a determinada universidade, a Mãos Leves lá conseguiu entrar e licenciar-se em Farmácia com honras.

Tenho para mim que ela pagava alguém para lhe fazer as provas. No mínimo conseguia as mesmas com antecipação, porque não é possível que uma sujeita, que passou a vida em cima do muro com notas medíocres tenha conseguido lugar no quadro de honra da universidade.

Isso não muda o facto de que é uma chata e fez a minha vida ser um inferno. Vou dizer-te apenas algumas das coisas simpáticas, que ela fazia comigo quando erámos mais novas: 1. apagava as luzes quando eu estava na casa de banho; 2. colocava espuma de barbear na minha mão enquanto eu dormia, depois fazia-me cócegas no nariz, eu ia coçar-me e ficava com o rosto cheio de creme; 3. enviava mensagens do meu telemóvel para os meus colegas a dizer que eu achava-os bué fofos e queria trocar uns chochos com eles; 4. atirava-me balões de água sempre que a nossa mãe terminava de secar-me o cabelo... Eu poderia continuar por horas a escrever as coisas, que ela me fazia, mas não tenho tempo para isso.

Só a Santa Prada de Milão me dá forças para atura-la. O que tem em beleza falta-lhe em discernimento. Aquela mulher é um mar de encrencas.

O Lucas é o Santo que toda a gente confunde com um terrorista. Carrega uma marca, que vai desde a parte inferior da bochecha esquerda, corre em direcção a sua narina direita e termina acima do olho direito. Um fardo doloroso de seu passado. Disparou contra si na tropa ao limpar a arma. Apesar de mal-encarado, barba por fazer, olheiras, tem um coração de manteiga, o que ajuda a suavizar a arrogância desmedida da Tasha das Mãos Leves.

Raios!

A Francesca mandou outro email a exigir, que lhe dê o meu endereço. Insiste que está na hora de enfrentar quem somos e parar de fugir. Que devemos superar os preconceitos sociais e conversar. Se ela pensa que isso vai acontecer está bem enganada! Prefiro aturar o Ordinário, e morar em Gastón. Eu e Francesca conversarmos? Jamais! Lugar de ex marido, ou seria mulher?! Não importa, lugar de ex é no passado!

teste

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Giuliane

4.0
2019-10-18T12:46:01+01:00

Giuliane

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