O leilão da virgindade

A virgindade tem seu conceito construído pela sociedade desde a Antiguidade, e pode variar entre as culturas.  Trata-se de uma condição muito valorizada em alguns meios sociais ou religiosos. Em lato sensu a palavra “virgindade” acha-se associada à mulher, e está fortemente corelacionada à integridade do hímen.  Por isso,  em algumas culturas, antes do casamento, são aceitáveis as práticas de formas de sexo que não o rompam, tais como o sexo anal ou oral, em que o status de “virgem” da mulher mantém-se.

É de conhecimento geral que, historicamente, nas principais sociedades, os costumes e as tradições fizeram com que as mulheres fossem criadas sob doutrinas, nas quais só podiam deixar de ser virgens após o casamento. Na Grécia Antiga, por exemplo, as jovens que perdiam a virgindade arruinavam a honra familiar; assim, eram vendidas como escravas. Por outro lado, na Roma Imperial, um pai podia matar tanto a filha quanto o homem que a tivesse seduzido, se ela perdesse a virgindade antes do casamento. Já entre os orientais, há culturas que seguem essa doutrina, e fazem valer os costumes de seus antepassados, até os dias de hoje.

Mediante o relatado nos parágrafos anteriores, ficou óbvio que a virgindade feminina é um assunto milenar.  Trata-se de um tabu a ser desvendado, um tema raramente falado abertamente, dividindo a sociedade em duas opiniões: os que acreditam que a virgindade tem de ser levada a sério; e os que acreditam que constitua questão ultrapassada.

De qualquer modo, apesar de ser tabu, atualmente a matéria encontra-se em constante destaque na mídia, aparecendo nas páginas principais de grandes jornais e revistas de âmbito nacional e internacional. Mas, a que se deve isso? Por que um tópico tão acautelado e pessoal auferiu tamanha notoriedade?  A resposta é mais simples do que se possa imaginar.

Nos últimos tempos, em que as mulheres virgens se encontram em vias de extinção, existem jovens oferecendo suas virgindades para venda ou rifa, anunciando publicamente suas ofertas através da Internet e de outros meios de divulgação.

Ou seja, até algumas décadas atrás, os pais ainda exerciam uma severa vigilância na vida das filhas solteiras, para que a virgindade delas fosse preservada a todo custo. Hoje, pracear a “pureza” virou modismo: é o famoso “leilão da virgindade”.

No ano de 2004, uma britânica de 18 anos, leiloou a sua virgindade pela Internet por 8.400 libras, para pagar os estudos. Já em 2007, outra britânica da mesma idade, vendeu a sua primeira vez por 10.000 libras. Mas, a história não parou aí: uma norte-americana, que utiliza o pseudônimo de Natalie Dylan, e uma romena, de 18 anos, também decidiram almoedar publicamente a castidade, utilizando a cansada e ordinária desculpa de que o dinheiro proveniente da alienação seria para pagar os estudos.

Essas jovens, de diferentes nacionalidades, estão cobrando para ter a primeira relação sexual de suas vidas, leiloando o rompimento do seu hímen (como se fosse um objeto) pelo pênis de um homem estranho, contanto que ele ofereça e pague o maior lance.

Como se isso já não fosse bastante infame, uma das jovens destacou que vai renunciar ao uso de preservativos. Hã? Como assim, renunciar à utilização de preservativos?  Simples! Ela contou que vai entregar ao vencedor do leilão um atestado médico, que mostra não ter nenhuma DST (Doença Sexualmente Transmissível). Pergunto: e quanto ao vencedor do leilão? Provavelmente, também será exigido um atestado médico, comprovando que ele não tem nenhuma DST; mas, será que alguém já informou a essa jovem que existem DSTs, que podem produzir falsos negativos nos exames? Isto é, a pessoa é portadora da doença, porém o seu organismo ainda não produziu anticorpos suficientes para a detecção.

O. k.! Não estou aqui para julgar ninguém, mas, essa “moda” do leilão da virgindade e a divulgação de tal comércio na mídia revelam a banalização e a depreciação do ato sexual em si.  Falar de virgindade nos dias de hoje parece uma “piada”, um “rótulo”. Tal como não faz sentido intitularem-se “virgens” as mulheres que praticam outras formas de sexo, mas que mantêm o hímen intacto. Essas mulheres a meu ver já não são virgens, nem aqui nem em Marte.

Tudo bem, concordo que é necessário superar as barreiras e os preconceitos nesse campo. Isso é intrínseco ao avanço da sociedade e do mundo moderno. Da mesma forma, aceito que cada um tenha o direito de cuidar de sua vida e de fazer dela o que bem quiser: nenhuma mulher deve carregar a sua virgindade até o casamento, a não ser por livre vontade. Quanto à “perseguida”, que deem, distribuam, ofereçam; mas… vender?

Não consigo aceitar o exibicionismo e a vulgarização de um aspecto tão pessoal e íntimo. A primeira relação de uma mulher deveria ser praticada com a pessoa “certa”, com consciência e proteção.  No entanto, a grandiosidade da virgindade e a sua perda foram transformadas em coisas triviais, vexatórias. Se continuarmos assim, chegaremos ao dia em que a intimidade inexistirá; ao invés do leilão virtual, veremos virgens nas ruas com cartazes dizendo: “promoção, oferta imperdível, apenas por hoje, pague ‘X’, e rompa meu hímen”.

Em suma: para muitos, esses acontecimentos podem significar uma evolução. Mas, para mim, é vergonhoso que, no século XXI, as pessoas transformem a virgindade em mercadoria à venda. O que mais me espanta é existirem compradores, pessoas dispostas a pagar milhões pelo produto exposto, rebaixando o ser humano a uma posição nunca antes ocupada, indescritível. Isto não passa de um insulto à própria condição humana; especialmente, ao sexo feminino.  Representa uma involução e decadência de alguns membros da sociedade, que parecem ter perdido as suas referências, invertendo completamente os valores morais. Homens que, provavelmente, tentam compensar uma vida sexual frustrada e limitada, com os milhões que têm no bolso.

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