CRISELA

É sexta-feira outra vez.
Como tal, o humor de Crisela cai num ápice. Queixa-se das rugas inexistentes, dos cabelos rebeldes e até da ventosidade que não lhe chega à face, mesmo estando trancafiada nas ruínas do seu lar.
 
— Tudo isto é culpa daquele careca rechonchudo! — lamenta-se a sua fiel e sem-par amiga Rita, ao ver-se obrigada a comer um ensopado gosmento de vísceras, avesso ao seu prato preferido: costelas de ovelha mergulhadas em vinho tinto, cozidas com especiarias dentro duma caçoila de barro preto em forno a lenha. — Podia ter-me deixado uns réis escondidos no cofre, uns oiros, joias… Mas não! Deixou-me de espólio um palácio derrotado e entregou àquele porco do Almeida de Albuquerque o que é de valia. Ainda assim não consigo deixar de adorá-lo, meu falecido roliço lambareiro Conde.
— A propósito, menina Crisela, a água do natatório enxugou de vez. Também estava mais verde que sapo! — informa-lhe a companheira, enquanto abocanha um pedaço de pão de milho, com uma semana de vida, que mergulhara no empapado. Crisela abana a cabeça, empurra a malga para longe e pousa a testa na mesa de madeira descarnada.
— Estou esfalfada deste alento! Um dia vendo o canastro para um desses marroquinos, castanhos ricaços, que fazem negócio sei lá do quê, compro dois acessos à navio e vamos para Londres!
— É, mas por ora tem que se despachar… O Almeida aguarda-a! — diz Rita, ao levantar-se. — Não é hoje que ele arrecada a tal relíquia?
— Sim, chegava pela manhã, bem cedinho, repetiu-me! Mais alguma asneira impossível de carregar, sem dar nas vistas. Aquela habitação parece um museu. Tristeza… De patavina me serve ter decorado a solução do cofre.
— O homem é um desusado, o que a menina espera? — é a vez de Rita desistir do ensopado.
— Esperava que o nosso recetor na capital aceitasse a tua enxerga. Mas mudou de ramo. O canalha não quer mais mobiliário com caruncho. Agora só aceita artes, quadros, estátuas… Falou-me quando cá veio e trouxe-me os horários das naus para Londres.
— Ah, desses bem precisamos, porque dos comboios já sabemos de cor. As malas estão prontinhas. É só pormo-nos a andar!
— Sim… Mas quando? Quando eu finar de tanto ouvir “precisei ir, minha escarlate! Sabes que te amo, que te amo muito, mas dinheiro é dinheiro, e este, vai já para onde é seguro.” — Crisela suspira fundo desolada. — Arranja-me o que usar Rita, é dia de fazer valer a minha chicha — pede, enquanto espia pela fenestra, os zaragateiros que demonstram publicamente o desafeto pela coroa.
E com razão…
 
A administração monárquica de Manuel II há muito que está estremecida. Os dias dos reis, de João Franco e do sistema de alternância, entre os partidos da Granja e do Regenerador estão contados.
 
O exército, aquele magote de alienados armado até aos dentes, outrora fiel protetor da monarquia, rejeita uma nova armada contra os revoltosos. Talvez não tenham recebido o que lhes cabe, cochicham pelas ruas da capital, entre campanhas a favor da mudança.
 
A realidade é que, no fim da primeira década de 1900, vive-se um clima de temor generalizado na extensão lusitânica. Nem a fração portuguesa do extremo sudoeste do continente Europeu, que ora faz parte do Reino de Portugal, ora se vê investida em disputas separatistas, é capaz de se livrar de tamanho caos.
 
A volubilidade político-social disseminada aos quatro ventos pelos sublevados, fatigados do venha a nós o Nosso reino, seja feita a Nossa vontade, a da realeza, e dos que bebem dos úberes da família real, agora é apenas mais um problema a somar aos sulistas.
 
Algarves vive literalmente as suas passas. Trinta e cinco anos depois da seca de 1875 que infertilizou o chão dantes fecundo, arrasou irrigações e quase eliminou os algarvienses do mapa, a região, parte do dito golfo luso-hispano-marroquino, não vê dias melhores a sua frente.
 
Em Faro, a Cerca Seiscentista, um paredão agemado de pedra e argamassa, com amplas linhas de tiro e mais de 2800 metros de perímetro, encobre a triste realidade.
É uma muralha que foi construída no século XVII para defender o centro da cidade. Herança longínqua da arquitetura militar, cobarde, mas necessária. Por trás de si esconde-se mais do que uma cidade medrosa e fragilizada. Aquilo que a pedra contém encontra-se falido moralmente.
 
Os ânimos andam exaltados e poucas mercancias funcionam. Nos únicos negócios de perpétua saída, independentemente da situação em que se encontram as gentes do Sul, entre comida, meretrício e álcool, a virga-férrea leva a melhor.
Nos mercados, onde os alimentos escasseiam, pessoas anavalham-se pelo último pedaço de carne, de peixe, de pão, se calhar até de nada. Ninguém sabe dizer o que conduziu ao início da discórdia. A violência importa mais e não o motivo que levou a esta.
 
Em tabernas, mofadas e catinguentas, onde o preço da bebida está inflacionado, há lutas a torto e a direito. Pessoas voam pelas portas de madeira. Embatem nas ruelas sujas e gosmentas, como pedaços de papel ao vento. Misturam-se com as moscas, aos excrementos e ao lixo. Ali ficam até passar a bebedeira. Muitos não tornam a acordar.
Quem mora aqui vive refém de tudo isto. Do medo dos roubos e confusões. Da incerteza constante e iminente de uma guerra civil, a descer da capital. Tudo o que é nefasto agita esta gente. Muitos sonham em abandonar a cidade. Destino: Paris ou Londres.
 
Pecado, lascívia ou necessidade, a corrupção do corpo tornou-se numa fonte de renda que arrasta campónias, burguesas e até mesmo mulheres de linhagem nobre como Condessas, cujas posses aristocráticas teimam manter, mas não têm como custear. Crisela pertence ao último grupo. Sorte dela ter uma lindeza invulgar numa região de tisnados pelo sol.
 
Mesmo quem não a conhece, sabe que no palacete, ao fundo da Rua João de Deus, vive uma Condessa tão branca como a neve, e de cabelo tão vivo quanto o sangue. Para a plebe é coisa do destino, já que a mansão se chama Palacete Escarlate, devido aos pilaretes vermelhos boleados que o circundam.
 
Com longos cabelos encaracolados, puníceos, tem cútis tão pálida que as veias do rosto se coram de índigo e misturam-se com as sardas acastanhadas da testa e bochechas.
Os olhos, duas esferas verdes com estrias arroxeadas, destacam-se da face harmónica. As maçãs do rosto estreitam-se ligeiramente em direção ao queixo. Seu corpo esguio, de formas atraentes, curvas e volumes, onde os homens gostam de pousar os olhos, é tornado ainda mais convidativo por uma pele aveludada de uma brancura fresca e leve.
 
Sina dela, a da Condessa de Montenegro ser tão excêntrica ou ao invés de arrancar por dez réis de mel coado, ao benquisto, estaria confinada aos aposentos da sua mansão em ruínas, herança da viuvez. Muito embora, desde que a insegurança se espalhara pela capital algarvia, ficar em casa tornara-se a sua vida.
 
O Almeida de Albuquerque também faz de tudo para impedir Crisela de ir à rua. Como tal, retirara-lhe o único militar, um bêbado energúmeno, que a protegia dos infames. A míngua de metal, que pouco basta para o sustento, estorva-a de contratar outro.
 
Aliás, desde a sua viuvez, aos 21 anos, que vive da esmola do amante. Ele paga-lhe as contas da residência, dá-lhe uns tostões vez por outra e nada mais.
Viúva de Manuel Távora, Conde de Montenegro, um quarentão nobre, da Casa de Bragança, que preferiu a banha suína a chicha da mulher, Crisela vive como amásia de Almeida de Albuquerque há quase dez anos.
 
O apaixonado é um banqueiro lisboeta, negociante de artes, com carácter questionável. Após a morte do Conde, seu amigo, mudou-se para uma mansão, na Baixa de Faro, comprada dois anos antes. Ali vive recôndito.
 
Diz-se que padece de uma moléstia psicológica que lhe dá uma fobia de morte de colocar os pés na rua. São suores, tonturas e desfalecimentos. Na última tentativa há quatro anos ficou desmaiado por tanto tempo que pensaram ter batido as botas.
 
Desde então assumiu-se como recluso antissocial, vivendo mergulhado na sua crescente coleção de arte, a sua ímpar e frágil ponte com o mundo exterior.
Crisela é a única pessoa de fora com acesso a ele, e é claro o advogado, Diómedes Souza, amigo do defunto Conde, e seu compincha nos negócios menos lícitos, que lhes regem as vidas.
 
Ao contrário do que se poderia esperar, o património artístico do banqueiro tem vindo a agraudar em força, com o aumento da volubilidade política.
 
Ela desconfia que grande parte das suas obras de artes sejam surripiadas de palacetes de nobres, saqueados, que tombam junto com a monarquia. Ou de viúvas, cujos maridos tenham confiado a fortuna, ao grande Almeida de Albuquerque. “Se me acontecer disparate, o Almeida de Albuquerque cuidará bem de ti. Poderás até começar uma nova existência em Londres, como me andas sempre a rogar. E mais minha criança: assevero que se transacionares o meu ovo Fabergé, não te venho puxar o pé ao alvorecer”, disse-lhe uma vez, galhofeiro, o Conde de Montenegro, quando ela zangada, se pôs a escaramuçar com ele sobre as suas afeições nutritivas.
 
O Conde sempre fora um homem desregrado. Desde os tempos do seu pai e do seu avô que as demasias alimentares tinham sido a fonte de óbitos tão prematuros quanto rotundos.
Seus hábitos iam desde sandes com toucinho, codornizes fritas em banha ou os seus preferidos, os jalebis, uma iguaria da Ásia Meridional e do norte e leste Africanos, que consiste na fritura de uma massa de farinha de trigo em formato de círculos, posteriormente embebida em calda de açúcar.
 
Contudo, independentemente de todos os seus defeitos de faca e garfo, uma coisa era certa: ele amava a esposa e tratava-a como uma rainha. Nada faltou à Crisela enquanto o Conde de Montenegro viveu. A Condessa tinha sempre um lugar à sua mesa e no seu coração.
 
 
Pena que, ao fim de quatro décadas de vida e apenas três de casamento, a gordura levou o melhor do Conde, sentenciando a sua bela esposa a tornar-se num pedaço de carne para o banqueiro.
 
Há nove anos que, todas as sextas, Crisela chega à mansão impreterivelmente às 14 horas em ponto.
Ali, é encaminhada pelo seu antigo mordomo, que virara servente do banqueiro inimigo, para o luxuoso aposento do mesmo. Só depois de esperar exatamente 60 minutos é que a face emaciada e olheirenta do banqueiro surge.
Após uma ou duas horas de auto bajulação, de uma louvaminha própria, sobre as suas finanças e obras de artes crescentes, lá consegue se estimular e com muita concentração fazer-se à Crisela.
Volvidos uns 15 minutos e função cumprida, veste as ceroulas, uma blusa de algodão amarelada e saca uns papéis do cofre, acompanhados de bolsas. Não raro, atira algumas moedas para ela, oferecendo-lhe também a costumeira mensagem:
— Preciso ir, minha escarlate! Sabes que te amo, que te amo muito, mas dinheiro é dinheiro, e este — diz ao balançar um saco de tecido castanho, cheio de réis ou joias — vai já para onde é seguro. — Depois de um furtivo beijo na testa dela, o banqueiro desaparece porta fora com o saco, sem dúvida, para o entregar ao corja do advogado ou outro facínora, com que esteja a tramar nesse dia.
 
O ritual não varia. É uma espécie de coisa do banqueiro, que tem que ser assim ou não funciona. Crisela pouco se importa com o rito. Tantas as peças a que se vê submetida, que obedecer horários é o de menos.
Não a assume publicamente. Deixa-lhe viver quase que, abaixo da miséria, negando-lhe acesso ao seu herdo marital. Garante que está melhor zelado com ele. Tudo isto Crisela suporta.
 
No entanto, a frase é que lhe corrói as entranhas, deixando-a possessa. Esforça-se para não o demonstrar. Custa-lhe mais até do que os 15 minutos de acometidas erráticas e resfolegantes.
Dizer que a ama, quando lhe recusa uma boa vida, e esfregar-lhe na cara o dinheiro que a ela pertence, fá-la odiá-lo.
 
A sua vontade é de arremessar-lhe o tabuleiro de chá às fuças ou espetar-lhe a caneta, que fica no psiché, num dos olhos. Só que precisa do pouco que ele lhe dá.
Logo após o funeral do seu Conde, buscou ajuda de Almeida de Albuquerque. O banqueiro garantiu a Crisela, que tudo o que lhe era de direito seria entregue: joias, dinheiro, propriedades.
 
Jovem e inocente, a Condessa acreditou na palavra do grande amigo de Manuel. “Oh, minha escarlate, não penses que quero ficar com o que te cabe, mas sabes o teu Conde tinha o dinheiro lá no exterior, acolá terra lusitana. Tens que ter calma. Eu e o Diómedes Souza estamos a fazer de tudo, de tudo. Em tempos vindouros terás o que é teu. A mesma lengalenga quando o procurava para lhe pedir o que era seu por direito.”
 
Por muitas vezes, após as visitas ao trafulha, ela chegou a prantear. Chorava, enfraquecida no recolho do seu quarto. Quando o chororó parava, dava por si a maldizer o gordo do Conde.
 
Entrementes, dias viraram semanas, semanas tornaram-se meses e quando deu por si, sequer tinha metal para pagar a criadagem e comer.
 
Ao fim de um ano, o único recurso foi perder a sua dignidade. Uma mesada chama ele. Para ela: uma esmola. Uma troca de favores carnais, mal paga.
 
E ainda que tamanha humilhação não seja suficiente, nos seus encontros, Almeida de Albuquerque tem o hábito de deixar o cofre aberto. É uma provocação à sua pessoa. Sabe que aquele dinheiro pertencia ao seu marido.
Sem a fartura de réis, Crisela perdeu tudo e todos. Não tem amigos.
 
Quando o Conde desviveu de ataque cardíaco fulminante, aos 43 anos, partindo para a companhia de pés juntos e mãos cruzadas, Rita, a velhota de 80, foi a única a não abandona-la. Os outros serventes foram embora quando ao fim de alguns meses a Condessa não pode pagar-lhes.
Só por isso, Crisela faz questão de tratar Rita como seu bem mais precioso, visto que a sua família burguesa a abandonara junto com a fortuna do finado.
 
Assim, as duas aflitas comem juntas e fazem longas caminhadas pelo palácio, que se degrada dia após dia, despido de móveis. Sem capanga e com as ruas pululadas de criminosos armados e bêbados desbocados, é o melhor que fazem.
 
Crisela é tão dependente de Rita que nem nas suas visitas ao larápio do Almeida de Albuquerque deixa-a em casa. Arrasta a velhota, e a mesma aguarda na diligência, enquanto a amiga cumpre a missão com o banqueiro. Crisela não tem vigor para retornar sozinha. Precisa da amiga para abraça-la após o enxovalhamento.
 
Todavia a carência não é o único motivo para Rita velar na charrete, sempre que a Condessa se envereda nos encontros à tumba do banqueiro. Crisela e a amiga têm tudo planeado para uma abalada em cima da hora. Sabem como sairão de Faro para Lisboa e da capital para Londres. Daí as duas malas em pele de cavalo a tiracolo.
O problema é que esse dia nunca chega. Todas as aquisições, do argentário, têm sido grandes demais para Crisela carretear em baixo do saiote. Por isso, ao longo do diminuto trajeto, amaldiçoam o Conde, o banqueiro e, sem falha, os revoltosos na capital. Se era malévolo com reis no poder, estava a ser pior com essa instabilidade.
 
Ultimamente Almeida de Albuquerque dava-lhe cada vez menos dinheiro, com desculpa do rumo do país: “posso ter que debandar, assim de impulso! Ossadas do ofício! Sabes que possuo olhos em todo lado, sei de tudo o que se passa!” Costuma dizer, ao atirar-lhe uns cobres para cima, após o concúbito.
 
Não obstante, tão logo o amante sai do quarto, ela desfecha o cofre, rapa-lhe uns réis e leva para Rita. Não que esta receba e quando o faz é para comprar mantimentos, ou agulha, linha e trapos para remendar a roupa de Crisela. Afinal, a Condessa precisa estar sempre apresentável.
 
Há muito que Crisela sabe abrir-lhe o cofre. O Conde, na sua inocência, dissera à consorte o código do Almeida de Albuquerque, quando ao fim de apenas 19 dias esquecera da sua combinação.
— Esses problemas de memória são culpa da gordura que morfas. Já te deve estar no juízo! — falou ela, ao espiar-lhe por cima do ombro, enquanto ele tentava abrir o baú para tirar uns títulos de propriedade.
— Oh, minha amada — iniciou a rir — que me resta da vida além de saborear umas guloseimas? Sou homem com posses de nascença e casado com a mulher mais bela dos chãos lusos. Tenho antes tempo, que passatempos. Resta-me comer. E beber! Um bom tinto leva-me ao viridário.
— E em regra a boca à latrina! — Crisela mirou-lhe, furiosa.
— Não sejas assim — beijou-a na bochecha. — Agora traz lá o documento que está na gaveta das ceroulas, a ver se abrimos isto.
Após desarrumar metade da roupa interior, a Condessa lá deu com a folha amolgada. Entregou-lhe o papel e ficou ao seu lado. Ele devolveu.
— Estou sem óculos, meu bem-querer. Vejo os números do disco, mas esses gatafunhos do Diómedes Souza não consigo — disse, com sorriso que lhe cobria o rosto.
— Vá! Vinte e dois, onze, cinquenta.
— Não, criança. Essa é a data de nascimento do Almeida de Albuquerque e o código do baú dele na mansão da Baixa. O meu é o outro.
— Dez, zero nove, noventa e nove.
— Isso! Data em que obtive meu filho Fabergé. Agora guarda bem esses números. Melhor! Copia para o teu diário.
 
Crisela fez o que o marido lhe pediu, e quando a coisa apertou com o Almeida de Albuquerque, decidiu-se a tentar. Ficou surpresa quando abriu o cofre do banqueiro, sem problemas.
Também não seria trabalhoso descobrir a solução. Ele tem por hábito dizer à Crisela que na data do seu começo, em 22 de novembro de 1850, o cosmos parou só para vê-lo nascer.
De narcisismo sem igual, assevera que a obra A Noite Estrelada de Vincent Van Gogh fora pintada anos depois, em sua homenagem. “Estará em minha posse brevemente. Tenho muitos contatos a sussurrarem nos ouvidos do Georgette P. van Stolk, de Roterdão. É ele que tem a minha pintura.”
 
Certo é que no cofre nunca há réis suficientes para Rita e Crisela viverem em Londres até o resto dos seus dias. Mesmo que consiga pilhar uma das menores esculturas, prefere não arriscar, por não ter noção da valia da peça. Sem contar que nunca lhe é permitido estar fora do quarto. Apenas para ir até ao aposento e posteriormente abandonar o mesmo.
 
São dez para às duas quando a carruagem de madeira enegrecida com duas janelas de cada lado, coberta por finos panos vermelhos e puxada por dois cavalos conduzidos pelo cocheiro, chega à entrada da rua do banqueiro.
 
Chovera a semana inteira e apesar do dia ter amanhecido ensolarado, o arruamento está como todas as outras ruas de Faro coberto com uma lama espessa e tenra.
Não há passagem de nada, além de pedestres. Crisela vê-se obrigada, a fazer o resto do caminho até a mansão a pé.
— Lá vou eu! — diz, com sorriso contrafeito para a velhota. — Deseja-me boa fortuna!
— Vai lá e despacha isso, que qualquer dia o varão do talho exige o mesmo de mim, e eu já não tenho idade para as tuas andanças — responde a amiga, que se espreme entre as bagagens. Não é a maior e melhor das charretes. Mas o cocheiro é irmão da Rita, o que se traduz em viagens gratuitas.
 
Mal a Condessa sai da carruagem, desemboca numa manifestação. Várias alcoviteiras protestam em frente ao lupanar mais famoso da cidade, conhecido por ter beldades de todos os cantos do mundo.
 
Crisela agarra as mamas com as duas mãos. Seios espremidos pelo espartilho, sobe-os pelo decote abismal, em coração, e acompanhada do seu guarda-sol preto rendado, segue de nariz erguido. Não se atenta com as más línguas.
 
Os tacões quadrados das botas, escondidos por baixo do vestido longo em bola preto que rodeia camadas de saias sobrepostas numa anágua, calcam o solo, como se tivessem sido desenhados para a calcetada lamacenta.
 
As alcoviteiras acotovelam-se com a sua passagem. Isto só faz Crisela desprezá-las mais ao caminhar empinada. Ah, se elas soubessem um terço da sua vida… pensa desgostosa.
Finalmente, com a bainha do vestido acastanhada da lama e dos excrementos dos animais, chega à mansão de Almeida de Albuquerque. O mordomo aguarda por ela no portão de ferro fundido.
— Não preciso da tua ajuda, seu vira-casacas! — berra-lhe, quando este tenta ajudá-la a limpar as botas no trilho de pedra que leva à entrada da mansão.
Acompanhada do mordomo, Crisela é escoltada para o quarto. Quando a porta se fecha, despe-se, veste o robe de chambre de gorgorão e deita na cama. Não tira as botas. O banqueiro gosta que ela as use durante as suas débeis investidas.
 
As cortinas arroxeadas combinam com a pintura florida da cabeceira de madeira e prendem-se ao dossel ornamentado de ouro. Estão devidamente amarradas, em cada um dos quatros cantos, dando-lhe uma visão geral do quarto, que cheira a bafio.
 
Ela passa os olhos pelo cómodo e logo fixa as vistas no cofre, revestido de uma camada espessa de aço escuro, embutido na parede. Encara o relógio retangular de pêndulo, ao lado deste, e nota que ainda tem 40 minutos sozinha.
 
Levanta-se e vai para fronte do baú incrustado. Girando o disco maquinal, com marcações à direita e à esquerda, finalmente ouve o som que tanto gosta. É um clique que a faz levitar. Gira a manivela. A pesada porta é aberta.
 
Mal credencia no que vê. Fecha e desfecha os olhos amiúde. Esfrega-os e só ultrapassados uns instantes, e muitos beliscões corpóreos depois, é que acredita nas vistas. Crisela logo reconhece como sendo uma obra-prima.
É a maior fortuna que ela vira no cofre até o momento. E mais: tem certeza que lhe pertence. Ali se acha a mais perfeita das artes. Uma combinação de esmalte, metal e pedras preciosas. O ovo Fabergé, azul e dourado do seu finado Conde, contrabandeado do Império Russo com auxílio do banqueiro.
 
Sem pensar duas vezes, Crisela desnuda as almofadas, volta para o cofre, tira o ovo e envolve-o em duas fronhas de linho. Arrasta, com o antebraço, uns réis para dentro do saco improvisado.
 
Acelerada, escreve um bilhete, cujo bloco está sempre no toucador com uma caneta de penas, e deixa-o dentro do caixa de ferro. Sai do quarto. Tem que ser rápida. Almeida de Albuquerque deve estar a chegar, para se gabar e inflar o próprio ego mesquinho.
 
Com passadas largas, anda ligeira pelos corredores do primeiro andar. O coração mora quase no estômago. Sente o rosto queimar. Encontra o mordomo. Ele nem tem tempo de lhe falar. Crisela dá-lhe uma biqueirada bem no meio das pernas, fazendo-o soltar um berro e rolar pelos tacos do chão, com as mãos agarradas ao abono de família.
— Judas cobarde — fala-lhe ao ouvido. Presenteia-lhe com mais uns quantos pontapés pelo corpo, enquanto ele se encolhe e geme.
Desce as escadas e quase escorrega por causa do lodo seco nas botas, que agora a faz ladeirar. Desacelera um pouco. Agarra-se ao mainel dourado e avista a copeira, de bata preta e branca, no átrio
— Socorre-me, pelo nosso Santo Padroeiro — retorce os olhos verdes e simula tonteira, ao tombar o corpo para cima do corrimão. — Acho que vou fanicar. Tenho febres, frios, calores… — comenta, ao levar a mão livre à testa.
— Ai Nossa Virgem Maria de Deus! O que faço? Convoco o Senhor Almeida de Albuquerque? — quer saber a serventuária inquieta.
— Não… deixa o meu estimado desfadigar. Não valho a preocupação. Ficarei bem com uma infusão, algo p’rós males digestivos que me assolam. Voltarei para o quarto.
A atenciosa faz uma vénia esquisita e vai para a cozinha. Como Crisela está de robe de chambre é possível que a história cole.
 
A Condessa mira a portada escura cheia de adornos: é agora ou nunca! Marcha veloz em direção a ela. Abre-a e sai da mansão. Corre pelos burgaus.
 
Por sorte, o mordomo traidor esquecera-se da porta de ferro escancarada. Não tem que pular o muro, nem conseguiria.
 
Enterrando as botas no lamaçal, acelera, ou pelo menos tenta, em direção à carruagem, que a aguarda no mesmo lugar. Mais um momento de sina: a manifestação outrora de mulheres agora é de homens contra o governo. Ao vê-la, metade dos sujeitos abre caminho. Crisela passa. Sorri para eles e arrecada beijinhos enviados com as mãos.
— Andor! Andor! — grita, ao entrar na carruagem. Seu rosto, dantes pálido, está vermelho do esforço. A respiração ofegante. — Quero estes cavalos a mil! Destino Estação dos Comboios! — fala, a bater na divisória de madeira do cocheiro.
— O que se passa, menina? — pergunta Rita, preocupada.
— Nosso dia chegou! Vamos para Londres! — diz ela, ao abraçar o ovo envolto nas fronhas.
— Mas de que modos? E o Palacete? — Rita está zonza.
— Falas das paredes? Tudo de importância já foi! O Palacete é presente nosso para Dom Manuel II e João Franco, isto se eles escaparem aos Republicanos! Melhor! Fiquem os militares com aquele destroço, minha amiga! Assim faz-lhes par com a Cerca Seiscentista, duas ruínas inúteis. Para onde vamos, tudo o que iremos precisar é disto! — fala, ao mostrar a relíquia a Rita.
 
Os olhos de ambas cintilam. Conseguem ouvir o automedonte bradar com os cavalos, para estes deslocarem-se mais rápido. Por fim, Crisela e a sua leal companheira terão a vida que merecem.
 
Enquanto isso, na mansão de Almeida de Albuquerque, rodeado dos seus serventes, desmaios e mais desmaios são vividos, cada vez que lê e relê o bilhete por ela deixado.
 
De Crisela, o banqueiro nunca mais ouviu dizer. Os olhos que possuía e tanto se gabava, de nada lhe serviram. Juntou-se à companhia de pés juntos e mãos cruzadas um ano depois, agarrado ao bilhete. Pronunciou-o pela derradeira vez: “Precisei ir, meu escarlate! Sabes que te amo, que te amo muito, mas dinheiro é dinheiro, e este ovo vai já para onde é seguro.”
*Conto galardoado com uma Menção Honrosa, pelo júri do 2.º Prémio Literário Fernanda Botelho

*Revisão de Diogo Resende