
“Ano novo, vida nova” é o que ouvimos e dizemos todos os finais de ano, sem sequer refletir sobre o verdadeiro valor desta expressão. A santa promessa anual de que, no novo ano, tudo será diferente, de que o “velho” dará lugar ao “novo”, já não é novidade. Com a mente cheia de ideias, tu, eu e muitos outros passamos os últimos dias do ano ansiosos pelo começo do próximo, prontos para cumprir tal promessa.
A maioria inicia o novo ano com uma autoanálise, avalia os fracassos e as deceções do ano que passou e coloca no Ano Novo esperança e sonhos. Muitos ficam tão envolvidos com o ditado que chegam a fazer listas de metas profissionais, amorosas, dietas, entre outras, que dificilmente saem do papel — ou, na melhor das hipóteses, do arquivo de texto do computador. Outros, mais empenhados — uma minoria — imprimem, recortam e carregam o cardápio de objetivos na carteira, como um amuleto da sorte, para não se esquecerem deles.
A realidade é que os meses se sucedem e cada vez nos afastamos daquilo a que nos propusemos no final do ano anterior. Concluímos que, sim, o ano é novo, mas a vida continua a mesma: os horários de sono permanecem trocados; as bebedeiras e ressacas são iguais ou piores; a infidelidade e a deslealdade ainda se fazem presentes entre os que mais amamos; a despesa mensal da academia que jamais frequentámos e a dieta que não conseguimos cumprir persistem. Sem falar daquela promoção no trabalho que o chefe prometeu e continua a adiar.
O problema é que, quando finalmente nos apercebemos disso, adivinhe só? O ano já terminou, e percebemos que de nada serviu deixar as deceções e fracassos no passado, pois eles fazem — e sempre farão — parte da nossa vida. A vida é feita de altos e baixos. Ainda assim, seguimos em frente e, com a chegada do “novo” ano, repetimos a santa promessa anual e nos obrigamos a acreditar pela milionésima vez no ditado: “Ano novo, vida nova”.
Mas porque é que isto acontece? Porque acreditamos que, no início de cada ano, será possível “formatar” o passado e reinventar-nos através de metas pré-estabelecidas? Será esta teoria de mudança ilusória uma herança cultural da nossa sociedade, que se repete ano após ano e apenas nos confirma que as metas são, muitas vezes, fantasias? Antes de se debruçar sobre metas e promessas, não deveria questionar-se sobre o verdadeiro desejo de mudança?
Não sou especialista no assunto, mas sei, por experiência própria, que o anseio de mudança deve ser genuíno. É necessário desejar ser diferente — física ou moralmente — para que a transformação ocorra de forma significativa. Pode traçar metas, mas, se não tiver coragem de olhar para si próprio e aceitar a mudança, repetirá os mesmos erros do passado e não alcançará aquilo que planeou. Como pretendes levar algo adiante se a tua atitude e o teu comportamento permanecem os mesmos? Apenas buscas inspiração externa, sem promover a tua mudança interna lenta e gradual. É por isso que o processo de transformação deve partir de dentro para fora. Podes até atingir algum objetivo, mas as chances de manutenção serão nulas, pois não te preparaste para a verdadeira mudança. Acabarás, assim, por acumular fracassos sucessivos — e não é isso que desejas.
Embora as desilusões e fracassos do passado tenham contribuído para a pessoa que somos hoje, é importante deixá-los para trás e abrir caminho para o novo e para o futuro. Não deves querer ser diferente por ninguém, senão por ti próprio. Não sigas a tendência de criar metas apenas porque todos o fazem, nem atribuas a transformação à passagem do ano. A mudança deve ocorrer a cada oportunidade do quotidiano; é preciso recordar os insucessos e aplicar o que se aprendeu com eles. Só assim palavras como “Ano novo, vida nova” poderão tornar-se realidade, e tu, eu e todos nós teremos uma “vida nova” ao longo de todo o ano, e não apenas como uma promessa anual.
Não sei se o Ano Novo renova realmente as energias ou se apenas nos dá a ilusão de um recomeço. Mas sejamos pragmáticos: como esperar que tudo seja bom se não percorremos esse caminho no dia a dia? Já Sócrates ou Maomé terão dito algo como: “As escolhas que fizeste no passado trouxeram-te até aqui. Mas as que fizeres agora conduzir-te-ão a um futuro que nunca imaginaste”.
Como lembrou o poeta Carlos Drummond de Andrade, na sua Receita de Ano Novo:
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

