
Os reality shows — programas baseados na vida real — têm vindo a ganhar popularidade com o passar dos anos, e parece que esta tendência não vai abrandar tão rapidamente quanto gostaríamos. A verdade é que estes programas se multiplicam semana após semana e apresentam conceitos variados. É rara a rede de televisão que não tem um reality show na sua programação e, embora exista uma massa de espectadores que não vive sem este tipo de programa, ainda há pessoas como eu, que não apreciam esta tendência.
Seria hipócrita dizer que odeio todos os reality shows — aliás, “odiar” é uma palavra muito forte; digamos que simplesmente não gosto deles —, mas, para ser honesta, até vejo um ou outro quando me cruzo com eles enquanto mudo de canal, como The Apprentice (O Aprendiz), atualmente exibido pela Sony Entertainment Television; Top Chef, na Bravo TV; ou What Not to Wear, exibido pela BBC.
O problema é que os reality shows mencionados, apesar de na sua essência premiarem acontecimentos que refletem a realidade (não vou entrar no mérito dos scripts e das encenações), não são tão medíocres quanto o Big Brother, que no Brasil é conhecido como Big Brother Brasil, ou simplesmente BBB.
O “Grande Irmão”, criado pelo holandês Johannes “John” Hendrikus Hubert de Mol, inspirado no romance de George Orwell, baseia-se na vigilância constante de pessoas reclusas, sem contacto com o mundo exterior. No Brasil, o programa dura cerca de três meses e o grupo de participantes — geralmente menos de 15 pessoas, escolhidas por um processo seletivo duvidoso — é tão anódino quanto o programa em si. Muitos são apelidados de “polémicos”, mas eu, pessoalmente, chamo-os de fúteis e inúteis. Não percebo como acompanhantes de luxo e atores pornôs não assumidos podem acrescentar algo à minha vida cultural, tão-pouco se compreende a presença de machistas e homofóbicos.
Repleto de participantes ordinários e duvidosos, todos em luta por minutos de fama que não merecem, o BBB representa o ponto mais baixo a que a indústria do entretenimento já chegou. É uma apologia à mediocridade (como refere Paulo Schmidt), que se reflete na falsa moral dos seus espectadores. E este é outro problema: a legião de fãs desse programa sofrível. Contudo, com o marketing agressivo da respetiva rede de televisão, como poderia alguém não ficar curioso e até assistir? A publicidade começa nos intervalos comerciais, nos telejornais, na internet, e assim por diante.
Deste modo, é quase impossível permanecer isolado e alheio a esta frivolidade que ocupa a vida de milhares de fãs de janeiro a março. Aqui entre nós: mesmo que não assistas a este lixo televisivo, sabes quem foi o vencedor da última edição. Eu sei quem foi e nem sequer acompanho o canal onde passa esta mediocridade, mas os teus amigos assistem, os colegas de faculdade comentam, e o Facebook e o Twitter são inundados por publicações sobre o programa.
Compreendo que uma parte significativa da população brasileira goste e siga este programa. O que, no entanto, me deixou verdadeiramente assustada foi perceber, em março de 2011, que o fanatismo pelo programa ultrapassava fronteiras. Como assim? Com o advento da televisão internacional via satélite, esta mediocridade começou a ser exportada para Angola e Portugal, onde passou a ser idolatrada e tornou-se numa praga difícil de conter. Preparem-se: janeiro está a chegar, com mais uma edição do Big “Bosta” Brasil, para deliciar os olhos de espectadores tão medíocres quanto os participantes do programa.
Vídeo da saia-justa de Pedro Bial com Boni no programa Altas Horas.

